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Momento para ouvir o que elas têm pra dizer

Rede Brasileira de Mulheres Negras Filósofas realiza curso com participação de professoras da região

12 de Julho de 2020 - 07h04 Corrigir A + A -
Obra da escritora Conceição Evaristo será estudada no curso

Obra da escritora Conceição Evaristo será estudada no curso

"Meu texto... nasce profundamente marcado pela minha experiência de mulher negra na sociedade brasileira." A frase da escritora mineira Conceição Evaristo, 73, sintetiza o trabalho de algumas das mais importantes militantes do movimento feminista negro no Brasil. Mulheres que expressam em suas obras o que suas antecessoras e elas mesmas viveram na pele, o racismo e a opressão machista. O legado delas nunca esteve tão visível, mas mesmo assim ainda é pouco, cada vez mais elas precisam se tornar referência para outras mulheres que buscam viver em uma sociedade igualitária. Dar voz ao pensamento dessas guerreiras motivou a Rede Brasileira de Mulheres Filósofas, em parceria com o Instituto As Pensadoras, a promover em agosto curso on-line Pensadoras Negras.

Pensadoras Negras tem um programa de 20 horas/aula certificado pelo Instituto As Pensadoras, que coordena o projeto. Além de abordar vida e obra de sete pensadoras negras feministas, a atividade será ministrada por oito professoras/pesquisadoras/ativistas igualmente negras. A coordenadora do curso, professora doutora Amanda Motta Castro, do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), diz que o objetivo é dar visibilidade às mulheres negras brasileiras.

Apesar de taxa de inscrição de R$80,00, o curso é uma ação solidária feminista, que é ajudar o quilombo Coxilha Negra, demarcado em São Lourenço do Sul. O valor será revertido em doação de cestas básicas, material de higiene e limpeza e cobertores para as mulheres quilombolas. "São mulheres que vivem em situação muito difícil, realmente precisam", fala a professora Amanda. Ainda há inscrições. Mais informações pelo e-mail mulheres.negras.brasil@gmail.com.

A professora lembra que a mulher negra é ainda hoje penalizada com os resquícios da longo história de três séculos de escravidão no Brasil. Estatisticamente ela é quem ganha menos, tem menos oportunidades e é a que morre mais cedo. De acordo com o pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada no ano passado, mulheres preta e pardas recebem em média menos da metade do salário de um homem branco e elas ainda se mantém na base da pirâmide que informa os níveis de desigualdade de renda no país.

Falar sobre quem se rebelou contra e expôs o sistema opressor ainda se faz necessário. Por este motivo o curso não exige escolaridade dos participantes. A ideia é que pessoas de diferentes formações, idades e profissões participem. "É importante que as pessoas entendam que a luta antirracista é de todos. Obviamente que na nossa pele a gente sente a a questão do racismo diariamente."

Amanda lembra que mexer em eixos estruturantes das sociedades, como são o machismo e o racismo no Brasil, não é fácil e nunca virá gratuitamente. "Nenhuma conquista nos foi dada, sempre foi uma luta."
Dentro dessa sociedade que ainda mantém altos níveis de desigualdade entre homens e mulheres e entre pretos e brancos surgiram mulheres que, mesmo diante da adversidade, usaram o cotidiano, por vezes muito cruel, para mostrar uma nova forma de encarar a realidade. A partir de ações políticas e/ou culturais falaram abertamente do sofrimento que viram e apontaram caminhos para a mudança.

Algumas delas são alvo do curso, a exemplo de Marielle Franco (1979-2018), Sueli Carneiro ou Aparecida Sueli Carneiro (1950); Conceição Evaristo (1946), Carolina Maria de Jesus (1914-1977), Lélia Gonzalez (1935-1994), Luiza Bairros (1953-2016), Maria Beatriz Nascimento (1942-1995) e Ludmila Teixeira. Seguindo Amanda elas foram escolhidas pela relevância de suas ações.

Contemporânea da vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em 2018, Amanda foi também amiga da ativista. Sobre Marielle, uma das fontes de estudo, a professora da Furg diz que ela foi morta justamente pela representatividade que tinha como mulher e líder de uma favela, num ato extremo de racismo.
A coordenadora ainda destaca atuações das mulheres negras nos anos 80, como da antropóloga mineira Lélia Gonzalez, que com sua militância em defesa dos direitos da mulher negra beneficiou as mulheres de hoje. "Muita coisa mudou, mas ainda tem muito o que mudar. A luta continua, é cansativa, mas necessária."

Compartilhamento de ideais
Mestre e doutora em História a professora Fernanda Oliveira, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), vai falar sobre a gaúcha Luiza Bairros, que foi ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasil entre 2011 e 2014. A pelotense Fernanda, que é coordenadora Nacional do GT Emancipações e Pós-Abolição da ANPUH e idealizadora e membro do coletivo Atinuké - Sobre o Pensamento de Mulheres Negras, foi patrona da Feira do Livro de Pelotas, em 2019.
Fernanda conta que não estuda diretamente o pensamento de Luiza Bairros, mas por ela ser gaúcha foi um dos primeiros nomes lembrados pelo grupo de mulheres Atinuké. "Desde 2016 a gente incorpora o pensamento da Luiza Bairros nos nossos estudos."

Luiza nasceu em Porto Alegre, mas a aproximação dela com o movimento social negro ocorreu mesmo na Bahia, mais especificamente em Salvador, a partir de 1979. Na década de 80 ela também foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado.

Luiza deixou uma série de textos acadêmicos em que dialoga o tempo todo com a ação dela junto ao movimento social. "Ela tem o que a gente chama de 'pensamento-ação'." Ou seja, ela tirava as reivindicações do cotidiano e as levá-la aos grupos e para os seus estudos e fazia o caminho inverso também.
A professora destaca que Luiza levou o tema racismo para a discussão feminista. A porto-alegrense dizia que era fundamental articular outras situações de exclusão vinculadas ao racismo. "Ela leva o tratamento de gênero para o movimento negro, o que não era tratado. E leva o racismo para dentro do movimento feminista, o que também não era tratado."

Para Fernanda, nesses mais da 40 anos que separam o início da atuação de Luiza dos dias de hoje, infelizmente o racismo permanece, ele apenas se adaptou às novas configurações sociais. "O que mudou é que cada vez mais nós mulheres negras nos conscientizamos de que podemos ser além desse lugar de exclusão."

Contra todo o infortúnio, homens e mulheres negros estão conseguindo galgar outros postos dentro de uma estrutura de poder, promovendo pequenas transformações. "São bem pequenas, são bastante restritas e em alguns casos são até individuais. Mas são possibilidades outras que a gente conseguiu, sobretudo a partir dos anos 2000."

Neste sentido entram as ações afirmativas, que conseguiram dar acesso de pessoas negras ao ensino superior e também ao mercado de trabalho. "O que trouxe mudanças importantes, mas a estrutura permanece racista. Ao mesmo tempo que a gente avançou, nós também somos constantemente barrados pelo racismo."

Assim, como a professora Amanda Castro, Fernanda Oliveira também comenta que é preciso conhecer as mazelas da sociedade brasileira para que se possa encontrar saídas claras para dias melhores. "É preciso reconhecer o racismo e o sexismo que estruturam a sociedade brasileira para depois avançar. A gente não pode perder a esperança."
E este é o maior legado dessas pensadoras, para a professora Fernanda. "Esse é um elemento, pra mim, bastante importante no movimento de mulheres negras, do qual a Luiza fez parte. Elas trazem a política da esperança."

Quem são elas:

Carolina de Jesus
Foi uma das primeiras escritoras negras do Brasil e é considerada uma das mais importantes escritoras do país. A autora viveu boa parte de sua vida na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, sustentando a si mesma e seus três filhos como catadora de papéis. Em 1958, tem seu diário publicado sob o nome Quarto de Despejo. O livro fez um enorme sucesso e chegou a ser traduzido para catorze línguas. Outras obras: Diário de Bitita (1977), Casa de Alvenaria (1961) e Pedaços de Fome (1963).

Conceição Evaristo
É escritora. Graduada em Letras pela UFRJ, trabalhou como professora da rede pública de ensino da capital fluminense. É Mestre em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro, com a dissertação Literatura Negra: uma poética de nossa afro-brasilidade (1996), e Doutora em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense. Entre seus livros estão Ponciá Vicêncio (2003) e Becos da memória (2006).

Lélia Gonzalez
Foi uma intelectual, politica, professora e antropóloga brasileira. Nascida na cidade de Belo Horizonte, muda-se com toda família, em 1942, para o Rio de Janeiro. Fez graduação em História e Filosofia, mestrado em Comunicação e doutorado em Antropologia Social.

Luiza Bairros
Foi administradora, ministra-chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Brasil entre 2011 e 2014. Formada em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, possuía Mestrado em Ciências sociais pela Universidade Federal da Bahia e doutorado em Sociologia pela Universidade de Michigan.

Marielle Franco
Foi uma Socióloga com mestrado em Administração Pública. Eleita Vereadora da Câmara do Rio de Janeiro pelo PSOL, com 46.502 votos. Foi também Presidente da Comissão da Mulher da Câmara. No dia 14/03/2018 foi assassinada em um atentado ao carro onde estava. 13 Tiros atingiram o veículo, matando também o motorista Anderson Pedro Gomes.

Maria Beatriz Nascimento
Foi uma historiadora, professora, roteirista, poeta e ativista pelos direitos humanos de negros e mulheres. Professora influente nos estudos raciais no Brasil, sua obra ainda é atual e vital para os estudos raciais mesmo após seu assassinato em 28 de janeiro de 1995.

Sueli Carneiro
É filósofa, escritora e ativista antirracismo do movimento social negro brasileiro. É fundadora e atual diretora do Geledés - Instituto da Mulher Negra e considerada uma das principais vozes do feminismo negro no Brasil. Sueli é doutora em filosofia pela USP.

Fonte: Rede Brasileira de Mulheres Filósofas

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