Editorial

Falta mais nada

24 de Junho de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Há pouco mais de um mês, durante seu depoimento à CPI da Pandemia no Senado no dia 18 de maio, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello foi taxativo ao justificar o motivo de o governo brasileiro não ter adquirido vacinas do Consórcio Internacional Covax Facility. Apesar do Brasil ter recebido oferta de doses suficientes para atender metade da população brasileira, o militar argumentou: "Não havia garantia de fornecimento. Então, naquele momento, o que nós nos preocupamos era que nós assumíssemos um grau de recursos altíssimo sem uma garantia de entrega efetiva do laboratório".

Também ao responder aos senadores, desta vez referindo-se à falta de respostas e acerto com a Pfizer, o ex-ministro repetiu o argumento econômico como um dos itens preponderantes que o governo brasileiro tivesse atrasado a compra dos frascos. "A Pfizer trouxe 10 dólares a dose. E nós estávamos negociando a 3,75 dólares [com a AstraZeneca], era três vezes mais caro", disse, completando em seguida que, mesmo frente à urgência da pandemia, não poderia ignorar o custo por ser obrigado a "responder a órgãos de controle".

A lembrança destas respostas de Pazuello à CPI retumba ainda mais forte diante do que tem sido revelado nos últimos dias sobre a negociação do Palácio do Planalto para compras de imunizantes de uma fornecedora indiana. Conforme documentos oficiais, o Brasil fechou acordo de aquisição da vacina Covaxin, do laboratório Bharat Biotech, por 15 dólares a unidade. Preço 1.000% acima do oferecido pelo mesmo laboratório meses antes. E 50% acima daquele valor da Pfizer citado pelo ex-ministro como impeditivo a um acordo com a companhia, na avaliação do governo.

O acordo brasileiro com os indianos mais uma vez reforça uma aparentemente interminável teia de falhas, irresponsabilidades e, agora, suspeitas de corrupção na condução da crise sanitária que já soma mais de 505 mil mortos. Justificar tantos problemas que nos levaram a este quadro como prudência ou desconhecimento soa falso. Desrespeita a inteligência de cada cidadão que preocupa-se verdadeiramente com o país. Afinal, os valores das vacinas contratadas desmentem os depoimentos, as ações práticas desmentem os discursos ensaiados, as investigações desmentem a suposta busca incansável por transparência e correção.

Será que ainda falta algo para deixar claro o quão grave é a situação?


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