Honestidade

Um ato de honestidade que deveria ser comum

Trabalhadores encontram carteira e devolvem ao dono em Rio Grande

17 de Junho de 2021 - 09h12 Corrigir A + A -
Os amigos Mbaye Fall e Saer Douf com Jardim: ato de honestidade (Foto: Divulgação - DP)

Os amigos Mbaye Fall e Saer Douf com Jardim: ato de honestidade (Foto: Divulgação - DP)

A semana começou de uma forma incomum na Delegacia de Polícia de Pronto de Atendimento (DPPA) de Rio Grande. Pelo ambiente onde costumam passar casos envolvendo violência e criminalidade, uma dupla de trabalhadores com origem senegalesa chegou tentando ajudar outra pessoa. O pedido era para localizar o dono de uma carteira encontrada na rua com todos os documentos, cartões e dinheiro. Segundo a delegada regional Lígia Furlanetto, o ato contagiou o ambiente por onde, resume, costumam passar casos em que "o homem fez mal ao homem". A partir daí, os policiais se mobilizaram para entrar em contato com o proprietário para devolver o objeto.

O dono da carteira, Douglas Jardim, 23, diz que percebeu que havia perdido a carteira ao chegar no trabalho pela manhã. Preocupado, refez o trajeto sem sucesso na busca e divulgou nas redes sociais o pedido de ajuda. Também sem retorno. Quando já estava em casa a noite, praticamente sem esperança de recuperar os pertences, recebeu a ligação da Polícia Civil e foi buscar a carteira. "Foi um ato de bondade deles e eu queria mais pessoas tivessem essa mesma honestidade. Eu fiquei muito feliz e grato", diz Jardim.

Responsáveis pelo alívio de Jardim, os amigos Mbaye Fall e Saer Douf, de 39 e 42 anos respectivamente, trabalham em uma empresa de pesca. A dupla de imigrantes senegaleses que escolheu Rio Grande para reconstruir as vidas conta que, ao ir para o trabalho pela manhã, viram a carteira e a guardaram na mochila. No fim da jornada, às 19h, foram direto à delegacia buscar auxílio para entregá-la do dono.

"Ele ficou muito feliz e Deus vai nos recompensar por isso. É um trabalhador como nós e, mesmo que não fosse, nunca pegaria um dinheiro que não é meu. Eu trabalho. Se eu pegasse para mim e usasse para comer, depois Deus perguntaria porque eu fiz isso? É algo muito ruim", argumenta Fall. Ele conta que, no ano passado, também perdeu sua carteira. Mas lamenta que o seu caso não tenha terminado como o de Douglas e que, por isso, sabe da importância desse ato de honestidade.

Mesmo cansados após o dia de trabalho, a dupla fez questão de aguardar na delegacia a chegada de Douglas para entregar a carteira pessoalmente. Momento que sensibilizou os policiais e foi compartilhado nas redes sociais da instituição como inspiração para que seja a regra, não a exceção. "Achamos importante fazer a publicação para que as pessoas conheçam a realidade dos imigrantes que na maioria das vezes ficam longe da família e estão em condições de subemprego. Existe muito preconceito sobre a vinda deles para cá. São seres humanos que precisam sustentar suas famílias", ressalta a delegada Lígia.

Busca por melhores condições de vida

Mbaye Fall e Saer Douf moram em Rio Grande há seis anos. Chegaram à cidade em busca de melhores oportunidades de emprego e renda. Não são casos isolados. Segundo a Secretaria de Cidadania e Assistência Social do município, entre 80 e 90 cidadãos do Senegal moram na cidade. A maioria homens. Do total, apenas sete são mulheres e cinco crianças. A minoria - 25 pessoas do grupo - trabalha com carteira assinada, restando aos demais atuar informalmente no comércio de rua. A cidade ainda conta com 20 moradores vindos do Haiti e duas famílias de venezuelanos e bolivianos.

Em Pelotas, um levantamento está sendo feito pela prefeitura para verificar a quantidade de imigrantes que moram na cidade e quais suas nacionalidades. Conforme o Grupo de Estudos em Politica Migratória e Direitos Humanos da Universidade Católica de Pelotas (Gemigra/UCPel), em 2015 cerca de 50 senegaleses viviam no município, trabalhando no comércio informal ou na construção civil. Segundo a coordenadora do projeto, Anelize Correa, atualmente sete imigrantes ainda trabalham no comércio. Na construção, no entanto, não é possível contabilizar, já que muitos criaram suas próprias empresas e prestam serviços para outras cidade do Estado. Ela também aponta uma característica do grupo: "Eles circulam se não estão conseguindo oportunidades por aqui e acabam indo para outras cidades em busca de trabalho, pois a maioria precisa enviar o dinheiro para o sustento de suas famílias que ficaram no Senegal", explica.

Atenção necessária aos imigrantes

Em Pelotas, a prefeitura prepara decreto que deve ser publicado na próxima semana onde cria o Comitê Municipal de Atenção aos Migrantes, Refugiados e Apátridas. A inciativa foi tomada levando considerando o fluxo migratório na cidade nos últimos anos. No caso dos senegaleses, alguns registros mostram que os primeiros chegaram em 2015. Uma das ocorrências mais recentes de imigrantes buscando se estabelecer na cidade foi em abril deste ano, quando um grupo de indígenas venezuelanos acampou na praça Coronel Pedro Osório. Através de uma parceria entre a prefeitura, a Cáritas Arquidiocesana e outras comunidades religiosas foi possível garantir por seis meses moradia ao grupo.

A partir deste caso, o Executivo decidiu dar mais atenção ao tema e foi selecionado no início de maio para participar da plataforma "MigraCidades: Aprimorando a Governança Migratória Local no Brasil", uma parceria entre a Organização Internacional para as Migrações (OIM), a agência da ONU para as migrações e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), como explica o diretor do Theatro Sete de Abril, Giorgio Ronna, que integra a equipe de ações migratórias no Município. Até então, a prefeitura prestava auxílio aos imigrantes através de secretarias como a de Assistência Social, mas não possuía um programa especifico sobre o assunto.

O Comitê irá atuar em todos os aspectos que possuem relação com a questão migratória, seja o acesso a documentos, serviços públicos e até mesmo possibilidades de ingressar no mercado de trabalhado. Capacitações como um curso de português vai oportunizar o entendimento do idioma, grande barreira encontrada por eles na hora de buscar emprego. A valorização da cultura também ganhará destaque através do projeto que vai criar uma feira de artesanato produzido por Indígenas que contemple as três etnias presentes na cidade: Warao, Guarani e Kaingang. A ação visa dar visibilidade a produção dos grupos e a geração de renda. "O Comitê aperfeiçoará o acolhimento humanitário das pessoas que migram por melhores oportunidades. Ao entrar em contato com a realidade e a cultura dos migrantes, nossa comunidade conhece melhor as contribuições que a diversidade e a riqueza cultural trazem para a sociedade" comenta Ronna.


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