Zona Sul

Seis em cada dez produtores de leite deixaram atividade na região

Redução no número de famílias envolvidas com o setor é mais acentuada que o índice estadual, que encolheu pela metade desde 2015

16 de Setembro de 2021 - 11h16 Corrigir A + A -
Segundo a assistente técnica regional da Emater Mara Helena Saalfeld, as propriedades da região que produzem menos de 50 litros de leite por dia foram as mais afetadas (Foto: Jô Folha - DP)

Segundo a assistente técnica regional da Emater Mara Helena Saalfeld, as propriedades da região que produzem menos de 50 litros de leite por dia foram as mais afetadas (Foto: Jô Folha - DP)

Os últimos anos têm sido de queda no número de produtores de leite vinculados às indústrias do Rio Grande do Sul, segundo os dados da Emater/RS Ascar coletados até julho deste ano. De acordo com o mais recente relatório socioeconômico divulgado, a diminuição foi de 52,28% entre 2015 e 2021. Na Zona Sul, o cenário de desistência da atividade acompanha a projeção estadual, porém com ainda mais intensidade. No mesmo intervalo de tempo, a redução foi de 61,07%. Em números absolutos, passou de 3.841 para 1.495.

Segundo a assistente técnica regional da Emater Mara Helena Saalfeld, as propriedades da região que produzem menos de 50 litros de leite por dia foram as mais afetadas. Há seis anos eram 1.753 e agora apenas 239. Quantidade que preocupa. "Não sei nem se vão estar no próximo levantamento", avalia. Entre os motivos para essa diminuição, Mara cita a dedicação exigida pela atividade, a migração da produção de leite para a soja e também os custos. No entanto, indica a sucessão como um dos maiores causadores da queda, já que, em geral, os filhos não querem seguir o trabalho desenvolvido pelos pais.

Um desses exemplos é Otto Bahr, 64, que recentemente deixou a produção leiteira. Para tomar a decisão de abandonar a produção de leite, levou em conta sobretudo os custos e a falta de interesse do filho de 27 anos, que optou por investir na soja. "Não estava valendo a pena, era muito serviço, muito gasto e o valor não compensava. Eu tive leitaria desde o tempo dos meus pais e ficamos presos nisso e como não tinha quem seguir, parei", explica. O aposentado ainda conta que seguirá com o plantio de legumes e verduras e irá investir no cultivo da soja.

Falta incentivo

A preocupação com desistência dos produtores de leite é discutida pela Assembleia Legislativa e tem sido acompanhada pelo Grupo de Trabalho do Leite. Presidente do grupo, o deputado estadual Zé Nunes (PT) reclama da falta de políticas públicas do Estado para incentivo ao setor. "O Estado abriu mão de pensar neste assunto, estamos enfraquecendo em uma atividade muito importante. Se não agirmos vamos perder os produtores que sobraram e o leite é uma atividade que distribui renda em vários municípios."

Nunes cita como exemplo os estados de Paraná e Santa Catarina, onde a atividade tem crescido. Para tentar reverter o abandono na cadeia leiteira, o Grupo de Trabalho pretende propor debates com toda cadeia produtiva do leite sobre o que pode ser feito a partir dos números apresentados no relatório, além de buscar auxílio do governo estadual. "Não podemos aceitar com naturalidade a diminuição em uma cadeia que tem um significado econômico tão grande", diz.

Persistência

Mesmo com as dificuldades, ainda existem exemplos de filhos que seguem o legado dos pais. Um deles é Elton Lubke, que aos 31 anos dá continuidade ao trabalho iniciado pela mãe há 40 anos. Porém, há apenas um ano que ele e a esposa Daniela Aguero, 29, se tornaram produtores majoritários. Até então, trabalhavam em sociedade. A propriedade do casal possui 50 vaca, com 24 produzindo leite e sendo responsáveis por cerca de 450 litros diários que são entregues a uma cooperativa.

A alta nos preços da ração, luz, óleo diesel entre outros são as dificuldades apontadas por Daniela. "Tudo subiu e o preço do leite ficou para trás", lamenta. Apesar disso, o casal afirma não pensar em desistir do ramo.

Aumento na produção

Na contramão dos números de criadores de vacas estão os dados referentes à produção de leite. Na comparação entre 2019 e este ano, o aumento foi de pouco mais de 130 milhões de litros, passando de 3,949 bilhões para 4,079 bilhões de litros. Se ampliar o intervalo de análise for ampliado, contudo, os dados ainda indicam queda de produtividade em seis anos de 3,15%, já que em 2015 foram 4,212 bilhões de litros.

Na Zona Sul, a produção do item que é comercializado para indústrias, cooperativas ou agroindústrias próprias em 2019 era de 108,2 milhões de litros, quantidade que aumentou para 117,8 milhões em 2021. Uma diferença de 8,86%. Porém, em seis anos a queda foi de 16,56%.

Segundo Mara, entre os motivos para o recente aumento produtivo está na especialização das leitarias, com novas técnicas de fertilização e manejo. "O produtor está selecionando melhor, buscando animais que produzem mais leite", comenta, lembrando que a Emater oferece assistência gratuita.

Número de produtores de leite vinculados às indústrias 

2015
No Rio Grande do Sul: 84.199
Na Zona Sul: 3.841

2021
No Rio Grande do Sul: 40.182
Na Zona Sul: 1.495

Fonte: Emater/RS


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