Em alerta

São José do Norte vive o cenário mais grave da Zona Sul

Proporcionalmente, município de 27.568 habitantes tem o maior número de casos e de mortes; um avanço que se deu rápido: em pouco mais de um mês

23 de Julho de 2020 - 22h09 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Na imagem, veículos são higienizados ao descerem da balsa que leva à cidade (Foto: Divulgação - DP)

Na imagem, veículos são higienizados ao descerem da balsa que leva à cidade (Foto: Divulgação - DP)

Pouco mais de um mês depois de identificar o primeiro caso do novo coronavírus, São José do Norte torna-se a cidade com o cenário mais delicado da pandemia, na Zona Sul. Proporcionalmente, tem o maior número de infectados e também de mortes. Até o início da noite de ontem, possuía o equivalente a um óbito para cada 3.446 habitantes.

Para tentar barrar a propagação da Covid-19, o município manteve parte das restrições da bandeira vermelha, ainda que a região esteja em laranja - de risco médio - desde a última sexta-feira. O comércio de produtos não essenciais permanece de portas cerradas ao público; só pode atuar no formato de tele-entrega, pegue e leve e drive thru. Nesta semana, um novo decreto definiu que os estabelecimentos mistos, que vendem artigos essenciais e não essenciais devem manter apenas os essenciais à disposição dos clientes. Os demais devem ficar isolados.

Para o funcionamento das indústrias, a prefeitura fixou regras ainda mais duras do que as da bandeira vermelha do Distanciamento Controlado. Ao invés de operarem com 75% dos trabalhadores, como permite o Governo do Estado, em território nortense, apenas 50% dos funcionários estão autorizados a atuar simultaneamente. 

Salões de beleza, barbearias e academias também permanecem de portas cerradas. "Mas precisamos estar atentos para verificar se não tem gente trabalhando de forma clandestina, em situação de maior risco do que se estivesse aberto", destaca a prefeita Fabiany Zogbi Roig (PSB).

A exigência do uso de máscaras, por exemplo, tem contado com apoio da Brigada Militar (BM) nas fiscalizações. Na Guarda Municipal (GM) parte dos agentes testou positivo e o efetivo ficou desfalcado.

Rotina interligada à Rio Grande
A ligação com o município vizinho é histórica. Com o avanço da doença em Rio Grande, difícil seria blindar a comunidade de São José do Norte - e seus 27.568 habitantes - da contaminação. Foi justamente assim que o primeiro caso foi registrado, em 18 de junho: o homem de 48 anos era assintomático, trabalhador de Rio Grande e passou por teste na empresa, junto aos colegas.

A partir dali desencadeou-se uma série de ações de enfrentamento, mas as linhas de contágio se espalharam rápido. O controle sobre o transporte aquaviário já gerou, inclusive, uma ação civil pública para forçar que a empresa - que não tem regulação municipal - disponibilizasse mais uma lancha e horários ampliados, para evitar o acúmulo de passageiros em horário de pico. Na última tentativa, a prefeitura teve o pedido negado pela Justiça.

A medição de temperatura dos usuários do sistema de transporte ao menos minimiza os riscos. O Executivo também determinou a testagem periódica dos funcionários das empresas que operam lanchas e balsas.

Investimentos crescem em prevenção
À medida que surgem novos casos de Covid-19, o governo tem procurado investir em testagem, já que a partir das confirmações, pode desencadear ações de controle e acompanhamento de possíveis novos infectados. Além de material encaminhado pelo Ministério da Saúde, a prefeitura já adquiriu 500 kits de exame RT-PCR, mil testes rápidos e, agora, firmará contrato com laboratório para realização de 300 testes sorológicos.

Ao conversar com o Diário Popular, na tarde desta quinta-feira (23), a prefeita destacou a preocupação com os quadros assintomáticos. E os resultados ajudam a entender o alerta. Boa parte dos diagnósticos positivos vem de pessoas na faixa etária entre os 30 e 39 anos; isto é, são uma população ativa, que está no mercado de trabalho e circulando, não raro, pelas duas cidades.

Criação de uma Unidade Sentinela, com foco no atendimento em síndromes gripais, ampliação de equipes de enfermagem, compra de três respiradores e de medicamentos também integram a lista de ações desenvolvidas, com força, neste último mês.

Confira a proporcionalidade das 77 mortes da região 
- São José do Norte: 8 mortes = 1 óbito para cada 3.446 habitantes
- Rio Grande: 47 mortes = 1 óbito para cada 4.489 habitantes
- Pedro Osório: 1 morte = 1 óbito em 7.730 habitantes
- Santana da Boa Vista: 1 morte = 1 óbito em 8.444 habitantes
- Piratini: 1 morte = 1 óbito em 20.663 habitantes
- Pelotas: 14 mortes = 1 óbito para cada 24.457 habitantes
- Capão do Leão: 1 morte = 1 óbito em 25.354 habitantes
- Canguçu: 2 mortes = 1 óbito para cada 28.022 habitantes
- Santa Vitória do Palmar: 1 morte = 1 óbito em 29.676 habitantes
- São Lourenço do Sul: 1 morte = 1 óbito em 43.582 habitantes

Veja o panorama da pandemia 
- Em Pelotas: O município atingiu a marca de 700 casos confirmados, com mais 27 resultados positivos. O número de pessoas hospitalizadas alcançou a maior ocupação na tarde desta quinta, com 31 pacientes; 12 são moradores de outras cidades da região e do Estado. Na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) eram 15 internados.

- Na Zona Sul: Além de Pelotas, os municípios de Turuçu, Santana da Boa Vista, Arroio Grande, Capão do Leão, Santa Vitória do Palmar, Chuí, São José do Norte e São Lourenço do Sul também elevaram as estatísticas, ontem. Rio Grande registrou mais três óbitos e rompeu os mil casos de Covid-19. Até as 22h eram 2.334 infectados nos 19 municípios da Zona Sul. Confira o cenário:

                        Número de casos              Incidência por
                                                            100 mil habitantes (*)
- Rio Grande: 1.009                            478,1  
- Pelotas: 700                                     204,4
- São José do Norte: 303                    1.099,4
- Canguçu: 61                                     108,8  
- São Lourenço: 59                             135,3
- Santa Vitória do Palmar: 53             178,5
- Capão do Leão: 33                           130,1
- Candiota: 27                                     281,7
- Arroio Grande: 21                            114,7
- Jaguarão: 15                                     56,2
- Piratini: 14                                        67,7
- Pinheiro Machado: 9                        73,3
- Santana da Boa Vista: 9                   106,5
- Chuí: 9                                             152,1
- Pedro Osório: 5                                64,6
- Turuçu: 3                                          83,3
- Herval: 2                                           29,3
- Morro Redondo: 1                            15,3
- Cerrito: 1                                          15,3

(*) Para calcular a incidência, divide-se o número de casos registrados pelo total de habitantes. É um instrumento para poder se comparar municípios de diferentes portes e verificar a gravidade do quadro.

- No Estado: Mais 59 óbitos foram notificados no Rio Grande do Sul e o total chegou a 1.456. O número de infectados bateu em 54.841 em 455 municípios. O índice de recuperados estava em 84%.


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