Impacto social

Como a tecnologia pode influenciar a desigualdade social

Automação em excesso é apontada como uma das principais causas das diferenças salariais

14 de Janeiro de 2022 - 06h44 Corrigir A + A -

Por: K2. – Assessoria e Comunicação Digital

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Imagem: vanitjan - Freepik

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Um estudo recente publicado pela Universidade da Califórnia em Los Angeles examinou a introdução da banda larga no Brasil entre os anos 2000 e 2009. 

Com os avanços tecnológicos, discutir a aplicação da banda larga em um país pode parecer algo desatualizado. 

No entanto, estudos como este apresentam questões importantes referentes à tecnologia e à desigualdade social. Ao analisar os processos de inserção da banda larga em terras brasileiras, o pesquisador Christopher W. Poliquin descobriu que o aumento de salários no Brasil variou muito entre diferentes níveis de profissionais. 

Com a adoção da nova tecnologia que prometia um avanço para o país, o funcionário médio teve um aumento de apenas 2,3% em seu salário, enquanto os profissionais em cargos gerenciais tiveram um aumento de 9%. 

Do outro lado, um crescimento foi ainda mais surpreendente: os membros de conselhos de empresas tiveram um aumento de 19% em suas rendas. De acordo com Poliquin, a nova tecnologia permitiu que os trabalhadores mais produtivos fossem ainda mais produtivos, e isso acabou ampliando a diferença salarial entre diferentes cargos.

Essa é uma realidade comum com as novas tecnologias, pois os trabalhadores mais qualificados possuem os conhecimentos e habilidades para utilizarem as inovações a seu favor. Isso acontece porque as soluções tecnológicas tendem a transformar tarefas rotineiras, disponibilizando tempo para focar em funções mais complexas.

No entanto, justamente essas tarefas que podem ser otimizadas pela tecnologia muitas vezes são a fonte de renda de um trabalhador com pouca qualificação. Nesse contexto, a tecnologia pode prejudicar as perspectivas de inúmeros profissionais, principalmente em países em desenvolvimento como o Brasil.

Acesso à tecnologia não é universal

A tecnologia é uma grande facilitadora da vida cotidiana. Inúmeras inovações tecnológicas são responsáveis por grandes mudanças na sociedade. Entretanto, a existência de uma determinada tecnologia não significa o acesso da mesma a todas as pessoas. 

Um bom exemplo dessa realidade é o acesso à internet de qualidade no Brasil. Conforme dados do Mapa de Qualidade de Internet, lançado pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), estados da faixa noroeste do Brasil como Acre, Amazonas e Roraima têm a pior velocidade de conexão de internet do país. 

Isso significa que a experiência de acesso à internet de um morador de um desses estados é completamente diferente de alguém que habita outro lugar do Brasil. 

Outro detalhe importante é o fato de que nem todos os brasileiros têm acesso às tecnologias digitais. Enquanto para algumas pessoas trabalhar com uma planilha eletrônica é uma tarefa simples, para outras isso é algo praticamente impossível. 

Para deixar mais claro os efeitos da desigualdade no acesso às tecnologias digitais,  imagine as seguintes situações: 

▶️ Um profissional executa a mesma atividade manual desde que começou a trabalhar e nunca teve contato com uma tecnologia digital. Daí entra em cena uma nova máquina que promete realizar com mais eficiência o trabalho que ele já executa. 

▶️ Em outro contexto, uma profissional trabalha com gerenciamento de equipes e tem familiaridade com tecnologias digitais. Entre suas atividades estão incluídas algumas tarefas técnicas que demandam muito tempo. Por essa razão, ela não consegue dedicar mais horas para alguns  processos importantes referentes à sua equipe. Isso muda quando uma nova tecnologia passa a executar todas as atividades técnicas que essa profissional precisa fazer, liberando mais tempo para ela se dedicar a outros aspectos das suas funções. 

Qual é o futuro de cada um desses profissionais? Quem terá um aumento e quem será demitido ou rebaixado? 

De acordo com Christopher W. Poliquin, o fato dos trabalhadores brasileiros não terem se beneficiado igualmente da banda larga, por exemplo, sugere que é necessária uma melhor compreensão sobre quais políticas públicas podem auxiliar na eliminação desse “fosso digital”.

Além disso, o pesquisador sugere que a solução pode vir através de investimentos complementares em treinamento para os trabalhadores que não possuem familiaridade com tecnologias digitais. 

Automação em excesso é preocupante

Para alguns economistas, tecnologias como as de automação (máquinas e softwares) são responsáveis - em parte - pelo aumento das desigualdades.  

Segundo o economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Daron Acemoglu, a automação excessiva é a causa dessas disparidades entre os salários dos profissionais.  

O economista aponta que a diferença salarial entre os trabalhadores americanos, por exemplo, pode ser atribuída principalmente à automação das tarefas. Essas atividades eram realizadas por pessoas que, na maioria das vezes, não possuíam diplomas universitários, e que agora foram substituídas por máquinas. 

Um estudo publicado pelo National Bureau of Economic Research apontou que 50% a 70% da mudança de salários nos Estados Unidos, desde 1980, podem ser atribuídas ao excesso de automação. 

A inteligência artificial e a robótica são exemplos de tecnologias que causaram um abismo na distribuição de renda, e a previsão é que esse problema aumente.  

Segundo o estudo, os profissionais com diplomas universitários têm sido poupados.  

Como aponta um artigo da Forbes, as grandes companhias de tecnologia (Amazon, Google e Microsoft, entre outras) foram muito beneficiadas durante a pandemia, pois o surto do vírus acelerou a adoção das tecnologias nas empresas - mas os seres humanos ainda são necessários.  

Um exemplo é a Amazon, que investiu na automação de seus armazéns, mas ainda assim precisou contratar mais de 300 mil trabalhadores durante a pandemia.  

Contudo, a certeza é que o trabalho humano não será mais o mesmo. Como destaca a empresa de tecnologia de dados Bloomberg: “Mais de 120 milhões de trabalhadores em todo o mundo precisarão se atualizar nos próximos três anos, devido ao impacto da inteligência artificial nos empregos”. 

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 Na sua opinião, quais estratégias podem ser utilizadas para evitar essa desigualdade causada pela tecnologia? Conte nos comentários. ✍️


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