Lançamento

Um olhar crítico sobre como a imprensa trata casos de feminicídios no Brasil

Livro Histórias de morte matada contadas feito morte morrida, de Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues, tem pré-venda até segunda-feira

23 de Outubro de 2021 - 15h13 Corrigir A + A -

Por: Cíntia Piegas
cintiap@diariopopular.com.br 

Obra. Autoras analisam
casos publicados em um
período de 40 anos (Foto: Divulgação - DP)

Obra. Autoras analisam casos publicados em um período de 40 anos (Foto: Divulgação - DP)

A distância entre São Paulo e Pelotas não impediu que duas jornalistas lançassem um olhar diferente para um crime que parece não ter fim, executado de forma sempre cruel e que resulta ainda do ódio às mulheres: o feminicídio. Com manchetes marcantes impressas por jornais do país, as autoras Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues fazem uma análise crítica da imprensa no livro Histórias de morte matada contadas feito morte morrida. A obra está em pré-venda na loja da Drops Editora até segunda-feira e deve estar à disposição em novembro. A produção foi toda no ano de 2021, de forma remota, durante o isolamento sentenciado pela Covid-19. Na publicação são analisados casos famosos e desconhecidos num período de 40 anos, coincidentemente ou não, entre as campanhas feministas “Quem Ama Não Mata”, de 1980, e a atual, “Nem Pense Em Me Matar”.

A pelotense e feminista Niara de Oliveira conta que o trabalho já era feito desde a comunidade virtual do Facebook “Não Foi Ciúme”, de análise crítica da imprensa na cobertura dos crimes de gênero em geral. “A comunidade foi criada em novembro de 2015, quando atuávamos junto com outras feministas - a maioria jornalistas - e propúnhamos novas formas de redação nos relatos desses crimes, refraseando títulos, linhas finas e textos, além de novas abordagens no corpo das matérias”, explicou. As autoras observaram que os casos de feminicídio foram ganhando um espaço maior pelo absurdo que é a vítima fatal, que não tem mais nem como se defender, ser posta em dúvida, sob julgamento, com até mesmo o crime colocado posto em questão. “Inclusive chamávamos atenção sobre a quantidade de crimes de feminicídio cometidos diariamente, considerando que só falávamos daqueles que saíam na imprensa. Imagina os invisíveis, que muitas vezes nem punição recebem”, comentou Niara.

Na composição da obra, um fato que chamou a atenção das autoras foi o da possível existência de um manual de redação para feminicídios, abstrato e subjetivo, que mesmo não impresso e não existente fisicamente de fato é adotado por redações de Norte a Sul e de Leste a Oeste do país. “Quase que invariavelmente os casos de feminicídio são publicados na voz passiva, corresponsabilizam a mulher pelo crime que lhe tirou a vida (por ciúme, por não aceitar o fim do relacionamento...), o que ameniza a responsabilidade do assassino”, explicaram as jornalistas. Nesse ponto de vista delas, a mulher vítima é colocada sob uma lupa moral, desde a foto que estampa a matéria até a falta de busca por informações sobre quem foi essa mulher assassinada.

Niara e Vanessa apostam que a obra possa trazer um olhar mais humanizado para a vítima. Um cuidado maior no relato, porque na ampla maioria dos casos essa mulher deixou filhos - em média ficam dois órfãos a cada feminicídio e em torno de 80% das vítimas que sofreram tentativas de feminicídio são mães - que ficarão com essa imagem criada pela imprensa a respeito dela. “Nós apostamos nessa nova geração de estudantes, mulheres jornalistas que estão entrando nas universidades mais engajadas em causas sociais e com novos questionamentos. Com isso, a ideia é que nosso livro chegue até os bancos de graduação para que esta questão possa ser adotada e debatida dentro das aulas de ética”, disse a mineira Vanessa, que atualmente mora em São Paulo. Para a autora, a expectativa é que o livro leve inspiração e provocação para as redações. “A obra faz a análise, a crítica e a proposta.”

O QUÊ
Livro: Histórias de morte matada contadas feito morte morrida, das jornalistas e feministas Niara de Oliveira e Vanessa Vanessa Rodrigues
QUANDO
Pré-venda até dia 25 pela loja da Drops Editora e nas livrarias a partir da segunda quinzena de novembro. A versão ebook será em dezembro
QUANTO
R$ 49,00 (pré-venda)
Mais informações: https://dropsdafal.com.br/produto/historias-de-morte-matada-contadas-feito-morte-morrida-pre-venda/


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