Direitos Humanos

Reitoria da UFPel cobra explicações para ação policial em festa de estudantes do Centro de Artes

Militares efetuaram tiro com bala de borracha, arremessaram bombas de efeito moral e agrediram jovens com cassetetes

10 de Novembro de 2019 - 22h28 Corrigir A + A -

Por: Michele Ferreira
michele@diariopopular.com.br 

Ação da BM foi considerada truculenta e desproporcional, após análise de sistema de câmeras da UFPel (Foto: Paulo Rossi - DP)

Ação da BM foi considerada truculenta e desproporcional, após análise de sistema de câmeras da UFPel (Foto: Paulo Rossi - DP)

Quando começou a Operação, para liberação da via, ocorria o último show da noite: uma apresentação no formato voz e violão (Foto: Paulo Rossi - DP)

Quando começou a Operação, para liberação da via, ocorria o último show da noite: uma apresentação no formato voz e violão (Foto: Paulo Rossi - DP)

Uma festa ao ar livre promovida pelos Centros Acadêmicos dos cursos de Artes Visuais, Música, Dança e Cinema da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) terminou em confusão nos primeiros minutos da madrugada de sábado (9), na Zona do Porto. Uso de spray de pimenta, disparos de tiro com bala de borracha, bombas de efeito moral e acadêmicos agredidos de cassetete; inclusive mulheres. É o saldo da Operação Integrada. Um Inquérito Policial Militar será instaurado para apuração dos fatos - confirmou o comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar (BPM), tenente-coronel, Márcio André Facin. A Reitoria da UFPel analisou imagens de câmera do sistema próprio de segurança, emitiu nota em repúdio e cobra rigorosa apuração.

A ação, considerada truculenta pelos estudantes, se transformou em vários vídeos e ganhou repercussão nas redes sociais. A comissão organizadora do evento Primavera Voltz, que tinha objetivo de arrecadar fundos aos Centros Acadêmicos, orienta os alunos que ficaram feridos a registrarem Boletim de Ocorrência. Todo o material será entregue à reitoria. "Eles não pediram para falar com ninguém da organização para saberem se a festa já estava acabando e agiram de forma violenta. Foi horrível", garante a estudante Mariane Simões, 23, que obteve autorização do setor de Fiscalização da Secretaria de Gestão da Cidade e Mobilidade Urbana para fechamento da quadra - na rua Alberto Rosa, entre Conde de Porto Alegre e Benjamin Constant - e uso de equipamento de som das 18h às 22h.

O fato de a Brigada Militar (BM) ter chegado minutos depois da meia-noite, quando já havia acabado o prazo, não justificaria a conduta - argumentam. As primeiras três viaturas teriam entrado de sirene aberta na Alberto Rosa para desobstruir a via e os jovens passaram a subir a calçada, à medida que os veículos avançavam. "Eles já desceram com cassetetes e fuzis na mão", destaca Mariane. Em seguida estava formada a confusão. Após, pelo menos, duas estudantes serem agredidas, alunos se aproximaram para tentar defendê-las. Aos poucos, cresceu o efetivo.

Ao final, a Operação que deveria apenas solicitar o final da festa com música ao vivo e a liberação da rua, transformou-se em gritos e retrato de violência, com mais de 20 policiais. No momento da ação, apresentava-se a última atração da Primavera Voltz: um show de voz e violão.
Ao tomar conhecimento do episódio, o Coletivo Juntos, que tem liderado atividades do Movimento Estudantil e Popular em Pelotas, elaborou texto em apoio ao Centro Acadêmico e adiantou: Não vamos nos intimidar! Continuaremos ocupando as ruas com arte, cultura e política!

Confira trecho da nota da UFPel
Em texto de 25 linhas, a Reitoria da UFPel faz breve histórico do evento, que transcorria sem qualquer incidente, em clima de alegria e socialização, conforme relato de todas as testemunhas. Sem exceção - enfatiza o documento divulgado às 21h40min deste domingo (10). Ao considerar a ação - que incluiu Brigada Militar, Guarda Municipal e agentes de Trânsito - truculenta e inadmissível, o reitor Pedro Curi Hallal vai direto ao ponto: ...Independente das razões que ensejaram a abordagem, que ainda precisam vir a público, absolutamente nada justifica a violência desproporcional empregada. Desta forma, a administração da UFPel repudia, veementemente, as violências perpetradas, e exige sua rigorosa apuração.

O que diz o 4º BPM 
Informações iniciais levantadas pelo comandante do 4º BPM, tenente-coronel Márcio André Facin, indicam que parcela significativa dos estudantes teria desobedecido a ordem para desobstruir a via e iniciado a arremessar pedras, cadeiras, garrafas e copos em direção às guarnições. Com a formação de uma "turba", a BM teria, então, utilizado material de efeito moral e efetuado disparo de munição não letal para dispersá-los.
A Brigada Militar ainda argumenta que as viaturas se deslocaram ao local motivados por queixas de moradores que reclamavam de algazarra. Em relato ao comandante, integrantes que participaram da ação ainda afirmaram que teriam solicitado o desbloqueio da rua Alberto Rosa e concedido prazo para liberação. Um Inquérito Policial Militar para apurar a conduta dos profissionais irá apontar se houve excessos durante a operação.

A palavra do professor Samuel Rivero
O coordenador do Grupo de Estudos em Segurança Pública (Gesp) da Universidade Católica de Pelotas (UCPel), que tem se debruçado sobre o tema Direitos Humanos, também comentou o caso. "Os vídeos da ação dos órgãos de segurança demonstram que estas instituições, e o próprio Pacto Pelotas Pela Paz, caíram numa armadilha muito comum quando o discurso da integração e da eficiência em Segurança Pública não vem acompanhado de efetivos investimentos nos pilares de uma Segurança com Cidadania, como ações que primam por mais inteligência e menos violência, além do fundamental,
reconhecer o próprio cidadão como protagonista da construção da segurança pública e não seu inimigo", enfatiza o pesquisador.

(*) Colaborou Giulliane Viêgas

 


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