Prévias para as eleições

Prévias colocam à prova rápida ascensão de Leite

Com trajetória política meteórica, ex-prefeito de Pelotas disputa neste domingo indicação para disputa à Presidência da República

20 de Novembro de 2021 - 10h12 Corrigir A + A -
Eduardo foi prefeito de Pelotas entre 2012 e 2016 - (Foto: Gustavo Mansur)

Eduardo foi prefeito de Pelotas entre 2012 e 2016 - (Foto: Gustavo Mansur)

O olhar angustiado e o dedo nervoso no F5 em nada se assemelhavam aos três primeiros pleitos da trajetória política de Eduardo Leite. As urnas de Caxias do Sul foram contabilizadas antes e o então governador José Ivo Sartori (MDB) contrariou os prognósticos e saiu na frente na contagem dos votos. A tarde de angústia em 2018 na casa da família Leite, em zona nobre de Pelotas, foi sucedida pela cena costumeira entre primos e irmãos do então prefeito pelotense: a celebração pela vitória nas urnas, desta vez como futuro governador gaúcho. Três anos depois, de Porto Alegre, o político pelotense articula nacionalmente para tentar vencer o escrutínio do PSDB, neste domingo, e ser indicado o candidato tucano ao Palácio do Planalto.

Embora talvez nem imaginasse, o caminho de Leite até o momento atual, menos de 20 anos após entrar para a política, começou em 1988 quando o pai, professor da Faculdade de Direito, José Luís Leite, o Marasco, um dos fundadores do PSDB em Pelotas, candidatou-se à prefeitura. Foram apenas 2.512 votos em uma campanha, segundo ele mesmo, pautada em um discurso equivocado: de que as promessas dos adversários eram impossíveis de serem cumpridas no município, em constante crise econômica. Alguns anos mais tarde, ainda criança, o hoje pré-candidato à Presidência encontrou as fitas da candidatura do pai e apontou o erro de discurso. "Ali ele começou a desenvolver essa noção de marketing e oportunidade das coisas", diz Marasco.

De acordo com o pai, sempre houve convicção de que o filho caçula, então com nove anos, considerado inteligente pela família e amigos, teria êxito na carreira que decidisse seguir. Quando encerrava a aula no Colégio São José, Leite atravessava a rua e encontrava-o em sua sala na Faculdade de Direito. Ali, discutia política com os colegas do pai. Depois, já adolescente, chamava a atenção dos amigos por ser leitor de jornais, incluindo do centro do País.

Não foi surpresa, portanto, quando o jovem de 18 anos, estudante da faculdade em que o pai lecionou, candidatou-se a vereador pela primeira vez. Foi uma campanha caseira e familiar, que envolveu os pais, irmãos, tios, tias, primos e primas. "Era o único candidato que tinha cartaz feito de papelão, por ele mesmo", recorda Marasco.

Parmalat, perna de pau e abandono do saxofone

A vida política de Leite começou a florescer ainda no Grêmio Estudantil do Colégio São José onde o Parmalat, como foi apelidado pelos demais alunos, foi presidente. Para o pai, foi o momento em que qualidades vistas por ele - como liderança, diálogo e de perfil agregador - se tornaram visíveis.

Antes disso, ainda na infância, Leite era considerado o pior no futebol disputado em família. Um perna de pau. "Talvez por isso tenha deixado o futebol de lado", brinca o pai. Nas férias, os primos perdoavam as botinadas distribuídas pelo excesso de vontade de vencer, pois sabiam como as derrotas afetavam o guri.

Sentado no sofá da casa que construiu há mais de 35 anos para viver com a mulher e os filhos, Marasco lembra outro episódio que talvez reflita o perfeccionismo do caçula. Certo dia, enquanto tocava saxofone na sala de estar, Leite recebeu como crítica um comentário mais forte do pai. Dali em diante, nunca mais se arriscou naquele instrumento. Hoje, prefere o pandeiro.

Arrancada política

Com quase três mil votos, Leite estreou em eleições ficando como suplente à Câmara de Pelotas em 2004 na coligação entre PSDB e PFL. O que bastou para chamar a atenção do prefeito eleito, Bernardo de Souza. Leite se tornou chefe de gabinete do secretário de Governo e, mais tarde, quando Souza renunciou e Adolfo Fetter Júnior assumiu a prefeitura, o tucano foi alçado a chefe de gabinete do novo prefeito.

Três anos depois, em 2008, com o processo de cassação de Cururu, vereador pelo PFL, Leite herdou a vaga no Legislativo, sendo eleito pela primeira vez no mesmo ano, com 4.095 votos. O primeiro vereador do PSDB após hiato de oito anos.

Adversário político no cenário local, o ex-vereador Ivan Duarte (PT) lembra do começo da trajetória na Câmara do hoje pré-candidato ao Planalto. Antes, ambos já haviam se encontrado. Como representante estudantil, Leite visitara o prédio da Câmara, ainda na rua Marechal Deodoro, para um encontro com o petista. Vestibulando, o jovem representava um grupo de estudantes insatisfeito com as mudanças nas provas de ingresso na UFPel. "O Eduardo entrou na sala, olhou ao redor e disse: 'um dia, vou ser vereador', relata Duarte.

No Legislativo pelotense, Eduardo Leite conquistou espaço rapidamente. Considerado impassível e bastante frio em meio às discussões na Casa, elegeu-se presidente da Câmara em meio a uma turbulência entre os vereadores e à dificuldade em formar consenso sobre a mesa diretora.

Corrida à prefeitura

Em 2011, Eduardo Leite reencontrou-se com Paula Mascarenhas, na França, e manifestou o desejo de ser prefeito de Pelotas. E revelou o interesse de tê-la como vice na corrida pelo Executivo. Hoje prefeita, Paula afirma que desde o primeiro encontro impressionou-se com a capacidade argumentativa do tucano. "É um cara fora da curva", elogia. As eleições em 2012 foram um reflexo da carreira de Leite: rápida arrancada, ultrapassagem aos opositores e vitória. Assumiu o governo com 27 anos, sendo o prefeito mais jovem da história do município.

Paula lembra que, com uma trajetória ainda curta na política, Leite enfrentou nos primeiros anos de prefeitura desconfiança da população e muita pressão no cargo. "Vi muitas vezes ele angustiado, pressionado e algumas poucas vezes irritado, mas nunca o vi perder o controle. Estava, sempre, menos nervoso do que nós", completa a prefeita.

Apesar da grande aprovação ao fim do seu governo, em 2016, surpreendeu a família e apoiadores ao não disputar a reeleição. Em 2018, inicialmente como azarão, protagonizou uma arrancada eleitoral que resultou na chegada ao Palácio Piratini. "Eu nunca vi o Eduardo tão nervoso quanto daquela vez. Nas outras eleições, ele tinha o discernimento das reais possibilidades dele", descreve o primo Maurício Martins. "Depois que saiu o resultado, a gente seguiu a tradição familiar do 'montinho', que sempre fizemos em comemorações. Não seria o Eduardo governador que acabaria com ela", brinca.

A oposição

O apoio a Bolsonaro na disputa presidencial de 2018 é destacado como um ponto de virada para Ivan Duarte. "O Eduardo Leite tinha o meu respeito e consideração. Quando ele declarou voto a Bolsonaro, eu subi na tribuna e disse: a partir de hoje, ele perdeu meu respeito", diz o atual presidente do PT em Pelotas. "É uma decepção profunda das pessoas que conheci na política." Entre as críticas recebidas de opositores, estão também as privatizações promovidas no Estado.

Prévias

Companheira nas disputas políticas locais, Paula classifica as prévias do PSDB deste domingo como o pleito mais difícil enfrentado pelo atual governador, com "um problema que é São Paulo [estado de João Dória, principal oponente] no caminho". Tanto ela quanto o pai, Marasco, dizem que, em caso de derrota na disputa partidária, Leite deve ficar dois anos longe das ações políticas, como já ocorreu entre 2017 e 2018, já que dificilmente renunciará ao governo do Estado para concorrer a outro cargo.

Como será a disputa

Marcada para este domingo, a escolha tucana será feita presencialmente, em Brasília, ou por meio de aplicativo. São três candidatos: Eduardo Leite, João Dória, governador de SP, e Arthur Virgílio, senador. Os filiados podem votar até as 15h, com previsão de resultado até as 18h. Caso nenhum candidato conquiste maioria absoluta, haverá segundo turno, a ser disputado no próximo domingo.

Os votantes são divididos em quatro grupos (peso de 25% para cada):

1 - Filiados até o dia 31 de maio de 2021

2 - Prefeitos e vice-prefeitos

3 - Vereadores, deputados estaduais e distritais

4 - Governadores, vice-governadores, senadores, deputados federais, presidente e ex-presidentes da executiva nacional

Número de votantes: 44 mil filiados previamente cadastrados.


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