Discussão

Mais um capítulo da substituição das charretes em Pelotas

Vereadora Marisa Schwarzer diz ter emenda para projeto em conjunto com a prefeitura, mas Executivo nega. Iniciativa gera polêmica na Câmara

19 de Maio de 2022 - 22h17 Corrigir A + A -
Marisa Schwarzer relata ter sofrido ameaças (Foto: Arquivo - Assessoria da Câmara)

Marisa Schwarzer relata ter sofrido ameaças (Foto: Arquivo - Assessoria da Câmara)

O recente anúncio da vereadora Marisa Schwarzer (PSB) sobre emenda de R$ 150 mil para custear o início da substituição dos veículos com tração animal em Pelotas tem causado polêmica na Câmara de Vereadores, antes mesmo do projeto ser protocolado. Na sessão desta quinta-feira (19), a parlamentar usou a tribuna para defender a iniciativa e denunciar ameaça que teria sofrido do vereador Anselmo Rodrigues (PDT), mesmo sem citar seu nome.

A parlamentar afirmou que na sessão de terça-feira seu discurso teria sido distorcido por outros vereadores, já que, segundo ela, não defende o fim dos charreteiros, mas a substituição do equipamento de trabalho. Durante a sessão mencionada por Marisa, o pedetista disse: “Vou filmar aí na frente e botar nessa tela aí, tem alguém que chega aqui com camionete de R$ 150 mil e quer tirar o pão da boca dos infeliz (sic). [...] Sou contra os maus-tratos, tem que tomar o bicho deles lá e processar. [...] Bota eles no meio da carroça e dá o relho pra mim conduzir eles (sic)”. A vereadora considerou as declarações uma tentativa de “constrangimento, assédio e limitação do trabalho político”.

Presidente da Casa, Marcos Ferreira, o Marcola (sem partido), solicitou que a parlamentar envie as provas das acusações à Mesa Diretora. Rodrigues, mesmo não tendo o nome citado, respondeu às acusações. “Isso aqui é uma casa de debates. E tem sim aqui na frente dessa Casa camionetes de R$ 150 mil. Eu não citei o nome de nenhum colega aqui, eu respeito meus colegas, mas é casa de debate e eu tenho nojo de vítima que quer se vitimizar e mais nojo ainda de deputada que pega R$ 150 mil para eliminar os charreteiros”. A reportagem entrou em contato com o vereador para que comentasse suas declarações, mas ele preferiu não falar.

Repercussão no plenário
As vereadoras Carla Cassais (PT) e Fernanda Miranda (PSOL) apoiaram Marisa, reclamando da forma como as parlamentares mulheres são tratadas. “Eu me solidarizo com a forma com que é feito o debate nessa Casa em relação ao seu projeto. Acho que a senhora faz muito bem, se sentiu-se ofendida, em requisitar as providências. Precisamos conseguir discutir as coisas no mérito e vejo, muitas vezes, isso não acontecendo aqui, especialmente quando são mulheres”, disse a petista.

Fernanda também prestou solidariedade, mas divergiu do tema. “Sei como é difícil que as nossas falas sejam distorcidas nesta tribuna, muitas vezes porque não nos escutam. Eu tenho divergência em relação ao projeto, entendo que é uma preocupação que temos que ter, porém isso precisa de tempo e projeto. Mas não dá para distorcer.”

Impasse
De acordo com Marisa, o projeto está sendo discutido junto ao Comitê Municipal de Proteção Animal (Comupa) e ao próprio Executivo. Dessa forma, deve ser protocolado na Casa em forma de Mensagem (projeto enviado pela prefeitura). Porém, a ideia não agrada a base, que garante que a prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) não encaminhará um projeto sem discuti-lo com toda a Casa. “A prefeita Paula certamente não vai mandar esse projeto sem um amplo debate com sua base. Imagina se a prefeita vai mandar um projeto sem a maioria ter conhecimento”, aponta Marcola.

A reportagem entrou em contato com o Executivo, que negou a construção de projeto conjunto com Marisa Schwarzer. “A iniciativa do Executivo já é amplamente conhecida do público e está sendo desenvolvida desde o início do primeiro mandato da prefeita Paula Mascarenhas. O governo tem mantido conversas com os charreteiros e buscado alternativas para essa substituição, com tratativas que estão em andamento”, diz o governo, em nota. A prefeitura diz reconhecer as ações e o interesse da parlamentar pela causa animal e sabe que ela esteve reunida com o Comupa para saber sobre o andamento do projeto. “Dessa forma, não é possível afirmar que a vereadora está envolvida na construção desse projeto.”

A proposta
A emenda foi viabilizada através do deputado federal Heitor Schuch (PSB). Para a vereadora, o centro da discussão é a diminuição de casos de cavalos em situação de maus-tratos. Ela ainda destaca a questão social da situação. “Nós que lutamos pelo fim do uso de animais puxando cargas sabemos que muitas famílias dependem disso para o próprio sustento. Por isso defendemos não somente o fim das charretes, mas sim a substituição delas. Esse ponto é muito importante pois queremos uma solução para o problema e não a criação de mais uma dificuldade”, justifica Marisa.

Segundo a Secretaria de Transporte e Trânsito (STT), existem 750 carroças emplacadas no município, o que isso não significa que seja o número oficial de charreteiros, pois existiria um universo maior que exerce a atividade e que pode não ter registrado o seu veículo. Dessa forma, não há um cadastro com o número oficial, como explica o Comupa, que ajuda na coleta destes dados juntamente com a STT. O Comitê afirma trabalhar com a Secretaria de Assistência Social (SAS) em uma maneira de conseguir informar a atividade de charreteiro em um cadastro social, com a finalidade de desenvolver políticas públicas direcionadas para esse público.


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