Rearranjo

Críticas provocam ajustes na base do governo

Antigos esteios dentro da Câmara mudam tom e prefeita Paula Mascarenhas investe em ex-opositor como líder informal

13 de Agosto de 2020 - 21h43 Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

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Atuação da prefeita durante a pandemia descontenta parte da base no Legislativo, que tem se distanciado (Foto: Michel Corvello - Ascom)

A pouco mais de quatro meses para o fim do governo, a base de apoio a Paula Mascarenhas (PSDB) na Câmara apresenta instabilidade. Em meio à crise sanitária, somada à proximidade da eleição, parlamentares até então considerados aliados de primeira hora passaram a direcionar a artilharia contra a prefeita e equipe. Ações tomadas no enfrentamento à pandemia e insatisfação com o que consideram falta de atenção ao Legislativo estão entre os principais motivos do afastamento.

O episódio mais recente do ruído entre parte dos vereadores ligados ao governo e o Executivo se deu na quarta (12). Durante as sessões da Câmara, dois vetos da prefeita a projetos de parlamentares foram analisados. Um deles, de Fabrício Tavares (PP), previa o reconhecimento da prática de atividades físicas como essencial durante o período de pandemia. Na prática, a proposta pretendia proteger academias de ginástica do fechamento durante decretos mais rígidos de distanciamento social.

Ex-líder do governo no Legislativo e até pouco tempo principal articulador em favor das propostas da prefeitura, o vereador viu seu projeto - aprovado por unanimidade uma semana antes - cair por terra após os colegas manterem o veto. Para que isso ocorresse, no entanto, a própria prefeita precisou agir. Percebendo que poderia ter sua decisão rejeitada, Paula ligou a integrantes da base para cobrar sustentação. E convenceu a maioria: veto mantido por 9 a 6. 

A intervenção direta da prefeita não desagradou não só Tavares, mas também o PTB. Já contrariado com a atuação de Paula,  logo após a sessão Anderson Garcia entregou carta a José Sizenando (DEM), presidente da Casa, em que diz abrir mão do posto de líder da bancada petebista.

Tavares considerou o veto de Paula a seu projeto retaliação política. Nas últimas semanas o progressista tem disparado contra restrições adotadas por Paula, como o fechamento do comércio e o lockdown. Além disso, questionou publicamente a aplicação de recursos federais, levando a equipe de comunicação da prefeitura a produzir materiais de divulgação prestando contas. De outro lado, dentro do Executivo não foi bem recebida a iniciativa da bancada do PP de sugerir - sem conhecimento da prefeita - mudança na legislação que permitisse a contratação de parcerias público-privadas (PPP) no Sanep. O texto foi rejeitado pelo plenário.

Apesar das rusgas, o progressista minimiza. Diz que continua se considerando apoiador do governo e que as discordâncias são pontuais sobre a gestão da pandemia. Contudo, admite que o fato de apoiar candidatura de seu partido para disputar a prefeitura faz parte do contexto de atrito com a prefeita. "Não vou ser hipócrita e negar o fato de que meu partido terá candidato próprio", diz. "Temos conversado menos, não posso negar. É lamentável, pois sempre a apoiei e recentemente fiz as vezes de líder de governo ajudando a articular projetos", completa.

Segundo Paula, as diferenças recentes têm como pano de fundo, além da pandemia, a disputa eleitoral que se aproxima. "O partido dele está se organizando para lançar provavelmente um outro candidato e acho que ele se sentiu na obrigação de marcar essa posição. É da política e eu entendo, não vou deixar de reconhecer tudo que fez pelo governo e ser grata a isso."

Sai Tavares, entra Marcola

Se com Fabrício Tavares a proximidade não é a mesma, o mesmo não é possível dizer da relação entre a prefeita e Marcos Ferreira, o Marcola (PTB). Recentemente filiado ao novo partido, até março o parlamentar oficialmente fazia parte das fileiras de oposição como integrante do PT. Agora, é considerado por Paula e sua equipe como o principal aliado na Câmara. A prefeita, inclusive, orientou interlocutores para que deixem que procurar o progressista e tratem os projetos de interesse do Executivo com Marcola e o líder formal do governo, Enéias Clarindo (PSDB).

Para o petebista, a aproximação com o governo após anos na oposição é natural por não ter buscado conflitos. "Estou procurando meu espaço. Entrei na Câmara em 1992, então sei os caminhos que têm que ser seguidos para ter resultados. Se um dia for o líder de algum governo será uma honra", avalia. Apesar do discurso em defesa da administração durante as sessões, nos bairros o parlamentar adota tom diferente. Em suas redes sociais são comuns publicações cobrando atenção da prefeitura, com comentários de moradores criticando a prefeita. "Só mudei o partido, não o jeito de trabalhar. Se vou no secretário e não tem solução, agora vou na prefeita. O que mudou é que a relação está mais próxima."

Paula diz reconhecer no parlamentar "esforço na defesa do governo" e que não acompanha o trabalho dele nos bairros. "Acho que na política a gente tem que ter lado e defender com coerência as nossas ideias", diz.

Falta de comunicação complica entendimento

Entre parlamentares, assessores e pessoas próximas da prefeita um dos diagnósticos apontados para as reclamações da base governista é a falta de comunicação. Um dos exemplos apontados é o projeto aprovado recentemente que instituiu multas a quem descumprisse regras de isolamento durante decretos de distanciamento pela pandemia. "Tornou-se algo de conhecimento somente depois de protocolado. A maioria das pessoas ligadas ao governo sequer tinha conhecimento do projeto, só teve acesso depois que chegou no Legislativo", comenta um aliado do governo. Opinião reforçada por Marcola. "Em quatro meses que estou na base, nunca houve uma reunião. Falta essa articulação."

Líder na Câmara, Clarindo minimiza as reclamações dos colegas. "Estamos em um momento muito difícil. Há uma pandemia, com muitas demandas e todos estão estressados. Além disso, os contatos apenas virtuais, sessões em vídeo. Tudo torna mais complicado", pondera.

Apesar dos atritos recentes com parte da base e de não ter tido apoio em anos anteriores a parte de suas propostas, Paula diz que tenta se manter em sintonia com os vereadores. "São águas passadas e prefiro olhar sempre pra frente, construir, e confio que possamos fortalecer a nossa base daqui pra frente. (...) Sei que alguns integrantes da base têm nos criticado e respeito, sei que isso é da vida democrática. Atribuo isso a esse momento difícil que estamos enfrentando, nesta pandemia, está todo mundo sob tensão, sob pressão, ainda por cima é um ano eleitoral", conclui.

 

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