Discussão

Câmara debate mobilidade urbana no século 21

Audiência ocorre nesta terça-feira, a partir das 10h, no plenário da Casa

25 de Abril de 2022 - 22h03 Corrigir A + A -
Luiz Antônio Lindau é diretor de Cidades na WRI Brasil (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Luiz Antônio Lindau é diretor de Cidades na WRI Brasil (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Na manhã desta terça-feira (26), o Legislativo e a comunidade pelotense estarão reunidos na Câmara de Vereadores para tratar sobre mobilidade urbana. A audiência pública foi encabeçada pela parlamentar Miriam Marroni (PT) e contará com a presença do diretor de Cidades na WRI Brasil, Luiz Antônio Lindau.

O objetivo do evento é ampliar o debate da temática em Pelotas, com o intuito de buscar soluções definitivas, principalmente relativas ao transporte coletivo. Em entrevista exclusiva ao Diário Popular, Lindau comentou sobre os temas que irá tratar na audiência e falou sobre estratégias e desafios para atingir um serviço de transporte coletivo de qualidade.

Diário Popular - O que a comunidade poderá ouvir nesta manhã de audiência?

Luiz Antônio Lindau - Pelotas e todas as cidades brasileiras estão sofrendo com a questão da sobrevivência do transporte coletivo e cada uma está buscando formas diferentes de resolver o problema. A questão não é só sobreviver, nós precisamos depois renovar para que depois o transporte público possa prosperar. Uma cidade não pode abrir mão do transporte coletivo. A quantidade de gente que depende unicamente do transporte coletivo é muito grande.

DP - O que é possível fazer para reduzir os impactos dos problemas com a mobilidade sobre as pessoas?

Lindau - O maior impacto que vejo em Pelotas é o custo da tarifa, então precisamos buscar outras receitas, o que a gente chama de receitas extratarifárias.

DP - Como é possível fazer isso ?

Lindau - Primeiro, que a conta do transporte coletivo cai toda sobre o usuário, quando na verdade se tem um custo que a cidade investe, que é substancial. Por exemplo, abertura e manutenção de vias, sinalização, engenharia e planejamento... isso tudo tem um custo e acaba beneficiando muito mais o automóvel, que não está pagando essa conta. O que a gente está cobrando da mobilidade é de quem usa o transporte coletivo. Está sendo cobrada uma tarifa e o usuário está pagando sobre um serviço que ambientalmente pro clima é muito bom e gera poucas externalidades quando comparado ao automóvel. O automóvel gera poluição do ar, gera ruídos, uma quantidade maior de acidentes e ele demanda muitos recursos da prefeitura para instalar, manter, planejar, gerenciar o sistema viário. Quem está pagando essa conta hoje, em boa parte, é quem usa o transporte coletivo, mas tem todas essas outras contas que ninguém está pagando, está saindo do erário público. Se cobra uma tarifa de quem usa o transporte coletivo, em boa parte pessoas que não tem outra alternativa.

DP - Quais estratégias devem ser elencadas pelo Poder Público para promover o transporte público?

Lindau - Buscar cobrança em parte dessas tarifas, alguma forma de ressarcimento para melhor equilibrar. Buscar um sistema que equilibre melhor os custos. Entender os custos de toda cidade, não só o custo da operação do ônibus, mas o custo de toda operação da mobilidade, de todo sistema do transporte, e depois ver quem está usando e melhor distribuir quem paga por isso.

DP - A extinção dos cobradores é uma alternativa correta?

Lindau - Isso é redução de custo do sistema de transporte. Isso é olhar para o transporte coletivo e tentar resolver a situação só olhando para o transporte coletivo. O que eu tento trazer como ideia é olhar os custos de tudo, como um todo. Depois é pensar se vamos tirar os cobradores ou cobrar mais pelas vagas de estacionamento que existem na cidade, que são disponibilizadas quase que gratuitamente. Nós disponibilizamos vagas para um estrato de população que tem recursos para comprar automóveis e, por outro lado, nós cobramos de quem não tem recursos a conta do transporte dele. É um total desbalanço.

DP - Podemos considerar que existe uma alternativa ao automóvel em cidades de médio porte como Pelotas?

Lindau - Alternativas ao automóvel existem inúmeras, é muito mais saudável caminhar. As pessoas podem andar de bicicleta, que precisa de um pouco mais de investimento, mas é um retorno enorme em saúde para a sociedade. Depois vem o transporte coletivo, que por pessoa transportada gera muito menos emissões, então este é o terceiro em ordem de prioridade. Por último, vem o transporte individual, as motos, os automóveis. Esses geram muita externalidade, muitos impactos negativos e muitos custos para a sociedade e pro planeta.

DP - Qual seria o modelo ideal de transporte coletivo para cidades de médio porte?

Lindau - O modelo ideal é aquele que a cidade acordar, usando seus atores. A cidade primeiro precisa entender onde estão os custos e quem paga a conta. Depois disso, fazer uma boa discussão para ver se outro modelo é possível e, a partir deste novo modelo, encaminhar soluções. Então, a solução ideal para Pelotas é uma solução que a população pelotense, junto com Legislativo e Executivo, venha a discutir e construir. Não existe algo que seja mais apropriado, cada cidade tem sua própria distribuição e topografia. O que precisamos buscar é uma solução economicamente possível, financeiramente possível, que seja sustentável e que esteja alinhada com os preceitos da Lei da Mobilidade, que fala na questão da saúde das pessoas, na atividade física. Cada uma precisa achar o seu modelo.

DP - Quais os principais desafios para encontrar esse modelo "perfeito"?

Lindau - Criar esse consenso, discutir com a sociedade para que se entenda isso e que as pessoas pensem de forma proativa, pois se cada um pensar nos seus próprios interesses temos um sério problema. Por exemplo, um dono de carro pode pensar que ele não precisa ajudar a pagar a conta, já que ele paga gasolina e IPVA. Mas ele nunca ouviu falar de externalidades, então é preciso apresentar para ele a conta dos custos que o automóvel gera para a cidade e para a sociedade. Vamos também olhar os outros modos: o que é o pedestre, o que é o ciclista e o que é o transporte coletivo, como eles se equilibram nesta conta. Por exemplo, tradicionalmente onde menos se investe é em pedestre e se houvesse mais investimentos teríamos calçadas fantásticas, um convite ao caminhar. Se cada um olhar para o seu umbigo não teremos uma solução.


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