Desentendimentos

Base estremecida na política pelotense

Descontentamento de vereadores com alguns secretários causa trancamento de pautas do Executivo na Câmara

11 de Setembro de 2021 - 09h22 Corrigir A + A -

Por: Vitória Leitzke
vitoria@diariopopular.com.br

Presidente e base do governo aguarda posicionamento da prefeita - Foto: Gabriel Xavier - Câmara de Vereadores - DP

Presidente e base do governo aguarda posicionamento da prefeita - Foto: Gabriel Xavier - Câmara de Vereadores - DP

A situação relatada na primeira das três sessões da última quinta-feira, na Câmara de Pelotas, expôs uma rotina na atual legislatura: os desentendimentos entre parlamentares e parte do secretariado da prefeitura. O descontentamento dos vereadores com o não atendimento de demandas e até mesmo supostas ofensas aos eleitos fez com que pautas do Executivo que não tramitem em caráter de urgência sejam trancadas. O movimento é articulado pela base governista como pressão para que a prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) se manifeste em favor do Legislativo.

Insatisfeitos com o tratamento recebido, os vereadores apresentaram em agosto um projeto de lei criando emenda impositivas. A proposta, apresentada pelo presidente Cristiano Silva (PSDB) e apoiada por todos os colegas teria sido o estopim para o acirramento de ânimos entre vereadores e secretariado. Flavio Ferreira (Secretaria de Gestão da Cidade e Mobilidade Urbana), Flavio Al Alam (Transporte e Trânsito), Eduardo Schaefer (Qualidade Ambiental), Jair Seidel (Desenvolvimento Rural) e Roberto Ramanho (Planejamento e Gestão) são os principais alvos das reclamações que já viriam desde abril, à época expostas pelo vereador Anderson Garcia (PTB). "Não são todos, não podemos generalizar. Alguns secretários que não atendem os vereadores, que um secretário desqualificou os vereadores. [O secretário] não disse que era o vereador A ou vereador B, ele falou na Câmara no total", relata Silva.

Durante a sessão da última quinta-feira, Michel Promove (PP) expôs sua insatisfação após, segundo ele, seu nome ter sido citado em uma reunião do secretariado. "Eu venho aqui votar, fico exposto porque estamos aqui para tomar decisões difíceis, enquanto o secretário, que a população nem conhece, faz reunião para falar mal de vereador", reclamou.

Para o presidente Cristiano Silva, os atritos estão prejudicando tanto o Legislativo quanto o Executivo. "Os vereadores sabem os seus deveres, é uma turma nova que está cobrando muito, às vezes isso pode incomodar. Mas eu nunca vi um vereador desrespeitar algum secretário", analisa.

"Terapia dos secretários"

A reportagem do Diário Popular apurou que o responsável pela pasta de Gestão da Cidade e Mobilidade Urbana (SGCMU), Flavio Ferreira, teria dito em reunião com os outros gestores citados que os vereadores "não têm capacidade para fiscalizar o trabalho deles". As declarações vazadas do encontro, apelidado como "terapia dos secretários", elevaram a tensão com a Câmara.

Devido ao desconforto, parlamentares já estariam decididos a "não manter convivência" com Ferreira. Uma das formas de buscar uma ação da prefeita foi justamente o pedido para que projetos do Executivo deixem de ser votados. Pressionada, Paula já teria conversado com o secretariado sobre os desentendimentos. Além disso, um dia após a apresentação do projeto de lei das emendas impositivas, também esteve na Câmara em reunião fechada com alguns vereadores da base tentando controlar a situação.

"Ao invés dos secretários se juntar para resolver os problemas, decidiram falar mal dos vereadores que votam para eles terem orçamento. Porque eles não falaram da oposição, eles falaram de pessoas que compõem o governo. Eu não posso falar pelos outros vereadores, mas tem muitos vereadores insatisfeitos, porque nessas secretarias já foram tratados com hostilidades. Uns veem os vereadores sem capacidade ou até mesmo inimigos, porque já teve caso de secretário não atender pedido de vereador. Mas quem pede é o povo, somos a ponte entre o povo e o poder Executivo e, não atendendo vereador, deixa de atender a população", dispara Michel Promove.

O vereador progressista diz ainda que haveria secretários "na zona de conforto e não querem ser fiscalizados". "Toda essa briga é gerada porque nós estamos fiscalizando mais, porque nós estamos fazendo o nosso papel e a gota da água foi a emenda impositiva, que teve secretário que falou que é inconstitucional, ou seja, uma coisa que existe há anos no Congresso Nacional, uma lei que funciona muito bem em outros municípios pelo Brasil, os secretários falaram que é inconstitucional e que nós estamos querendo muito nos meter no Executivo", conclui.

O que diz a prefeitura

O Diário Popular procurou os cinco secretários de governo alvos das reclamações dos parlamentares. Eduardo Schaefer e Flavio Al Alam pediram para não se manifestar no momento. Os demais responderam à reportagem. Em nota, a Assessoria Especial de Comunicação da prefeitura afirmou que o governo mantém relação harmônica com Legislativo. "No sistema democrático, divergências são comuns. Qualquer desacordo a solução será encontrada da forma que a atual administração sempre agiu: com diálogo, serenidade, transparência e respeito", diz o texto.

Segundo o líder do governo na Câmara, Marcos Ferreira, o Marcola (PTB), uma reunião com o secretário de Governo, Fábio Machado, está marcada para a manhã de segunda-feira para discutir a situação.


Comentários


Diário Popular - Todos os direitos reservados