Poderes

"Haverá independência total", diz novo presidente da Câmara

Eleito para a Mesa Diretora do Legislativo de Pelotas, Cristiano Silva (PSDB) garante que pauta não será subordinada ao governo

05 de Janeiro de 2021 - 08h37 Corrigir A + A -

Por: Vinicius Peraça
vinicius.peraca@diariopopular.com.br 

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Filiado a partidos políticos há quase 20 anos, Silva concorreu pela primeira vez na última eleição e assume presidência da Câmara prometendo mehorar a imagem do parlamento (Foto: Carlos Queiroz - DP)

Ao articular às vésperas da posse sua candidatura à presidência da Câmara de Vereadores de Pelotas e desbancar o até então favorito à reeleição no cargo, José Sizenando (DEM), o advogado Cristiano Silva (PSDB) mostrou que, embora novato em mandatos eletivos, não é ingênuo. Filiado a partidos desde 1992 (primeiro PMDB, depois PSD e desde março de 2020 no PSDB), é filho do ex-vereador Pedro Godinho. "Nunca concorri antes porque ele era vereador, bem votado", diz.

Em dezembro, ao perceber a divisão dentro da base governista entre aqueles dispostos a apoiar o democrata e os que rejeitavam a hipótese, o tucano movimentou-se nos bastidores para comandar a Mesa Diretora. Assim, recebeu suporte do Executivo, unificou aliados da prefeita e buscou reforço em outras bancadas para avalizarem seu nome.

Ao ser eleito para o comando do Legislativo na última sexta (1º) com 16 dos 21 votos, deu sinal de que a prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) pode contar com grupo mais coeso no parlamento em 2021 ao invés das dissidências enfrentadas durante o primeiro mandato. Contudo, Silva pondera: "é uma base da Mesa, não do Executivo". E afirma que, apesar da proximidade com o paço, não fará da Câmara um puxadinho do governo.

Casado há dez anos com a jornalista Maíra Lessa e pai de Sofia, de um ano e oito meses, Silva deixou recentemente a sociedade na funerária que administrava. Diz que pretende levar a experiência da iniciativa privada para a gestão do parlamento, tornando mais eficiente e superando a imagem de muito gasto e pouco trabalho.

Confira os principais trechos de entrevista concedida nesta segunda (4) em seu gabinete.

Diário Popular - O senhor é filiado a partidos desde 1992, mas nunca havia concorrido. O que o levou a disputar eleição agora?
Cristiano Silva - Nunca concorri antes porque meu pai era vereador. Desde que entrei para o Direito minha intenção foi concorrer. Mas meu pai tinha votações expressivas, não tinha como chegar e dizer: "olha, tu não podes mais concorrer". (Agora) Tive que convencer ele a deixar de concorrer, pois foram nove eleições em que participou. É um ciclo, né?

DP - Que diferença prática pode ter uma Mesa com novos vereadores? O que precisa mudar?
CS - A primeira coisa que vamos tentar mudar é a visão que a população tem sobre a Câmara e especialmente sobre os vereadores. Os vereadores hoje são malvistos, "são pessoas que só recebem e não trabalham". Essa aproximação da população com vereadores, mesmo em ano de pandemia, é uma das coisas que queremos melhorar. A eficiência também. Como venho da iniciativa privada, vamos tentar agilizar, qualificar o atendimento.

DP - A prefeitura tentou que fossem votados no final do ano passado projetos que a Justiça impediu a tramitação (extinção da licença-prêmio de servidores, fim da gratificação de professores de alunos com deficiência e mudanças no pagamento de auxílios temporários). A tendência é que retornem à Casa. Como pretende conduzir essa pauta?
CS - Ainda não conversei com a prefeita sobre esses projetos. Quando eles chegarem à Casa, vou encaminhar aos vereadores e dar prazo para que discutam e analisem. Inclusive eu. Depois disso, que passar pelas comissões e estiver tudo legal, coloco em pauta.

DP - Para quem não acompanha de perto as movimentações na Câmara foi uma surpresa o senhor ser eleito presidente. Quando a prefeita indicou apoio ao seu nome e como surgiu a candidatura?CS - Isso partiu de mim. O nome de consenso, aquele que seria o presidente… De consenso, não. Eu me propus a colocar o nome pelo partido. Mesmo sem experiência como presidente ou vereador, pois a nossa bancada é de vereadores novos. Solicitei ao partido que me indicasse porque já tinha conversado com outras pessoas, dos outros partidos. Aí chegamos ao meu nome.

DP - Percebeu que havia rejeição no grupo de vereadores ao candidato que estava se colocando (Sizenando) e então se apresentou. Pode ser essa a interpretação?
CS - Pode. Houve uma rejeição ao nome dele, estava desagregando o grupo. Não tinha quem se colocasse, então me coloquei à disposição. (Assessora intervém e diz que termo "rejeição" é forte e que vereadores queriam mudança.) É, não dá para dizer que foi rejeição. O grupo estava descontente, algumas pessoas, por não serem atendidas, escutadas. Estava bem encaminhado para uma reeleição… (Outro assessor intervém: "a grosso modo, foi o que salvou a Câmara de ficar com a base do governo, o nome do Cristiano foi consenso".)

DP - Nas últimas legislaturas houve reclamações à Mesa Diretora apontando falta de diálogo. Agora, PSOL e PT apresentaram documentos cobrando transparência e representatividade. O senhor pretende dar espaço aos partidos que pedem essa interlocução?
CS - Com certeza. O que mais quero é isso: diálogo. Vamos escutar os dois lados. Até aqueles que não foram atendidos vão ter a oportunidade de colocar as ideias que têm. Já conversei com o vereador Jurandir (Silva) e com a vereadora Fernanda (Miranda) (ambos do PSOL). Ainda não tive a oportunidade com outros. Mas já me coloquei à disposição para marcar o mais rápido possível para conversar. Quero ouvi-los. Não sou presidente dos 16 que me elegeram, sou presidente dos 20 vereadores.

DP - A nova Mesa Diretora é composta somente por homens da base do governo. Isso garante independência ao Legislativo?
CS - Em primeiro lugar, não tem só a base. Há partidos que ainda não fazem parte da base. Estão em conversas com a prefeita, mas a base são os nove que compunham a majoritária da prefeita na reeleição. A respeito da eleição da Mesa só de homens, convidamos a vereadora Marisa (Schwarzer, PSB), que no momento não sentiu que fazia parte dessa base da Mesa. É uma base da Mesa da Câmara, não do Executivo. Infelizmente tínhamos do outro lado as vereadoras Fernanda, Miriam (Marroni, PT) e Cristina (Oliveira, PDT), que não estavam conosco. Por outro lado, temos o vereador Cesinha (PSB). Só falaram da parte machista, da parte racista ninguém falou. Colocamos um vereador da zona rural, o Cesinha como representante negro. Essa crítica da vereadora Fernanda (composição somente com homens) não procede.

DP - E sobre a independência entre os poderes?
CS - Haverá independência total. A fiscalização continuará tanto da parte dos partidos de oposição quanto dos demais. São poderes independentes. A fiscalização também vai partir de mim. A prefeita sabe que vou cobrá-la. Tem muita coisa boa, como ela mesma fala, mas tem muito a melhorar. 

DP - Recentemente a Câmara foi criticada pelos gastos com diárias e cópias. Como o senhor pretende controlar isso?
CS - As diárias são direito dos vereadores. Tenho que ter controle e saber se efetivamente fizeram a viagem. Mas tem que continuar. Referente às cópias, vamos suspender momentaneamente essa parte. Foi um tema muito batido pela imprensa e pela população, com toda a razão, porque teve gastos absurdos. Vou cancelar, não vou pagar mais.

DP - Todos os presidentes que assumem falam em resolver a questão do aluguel do prédio da Câmara (cerca de R$ 45 mil mensais). O senhor tem planos sobre isso?
CS - Quero conversar com a prefeita, pois a Câmara vem repassando valores. Se houver algum prédio que atenda às demandas… Mas a ideia é construir um prédio novo com o auxílio da prefeita, pois a gente sabe que será um ano difícil, com queda de receita, mas a Câmara vem devolvendo valores há um bom tempo e agora temos que resolver esse problema da Casa. A preferência é por uma sede nova, com acessibilidade.

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