Editorial

Perseguição institucionalizada

19 de Abril de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Jornalistas que circulam no meio político e conhecem alguns dos movimentos de bastidores sabem como se dá a classificação da sociedade para personagens mais simplistas: “esse é nosso” ou “esse é de esquerda/direita”. Assim se divide o mundo na lógica de muitos na hora de definir tentativas de diálogo ou relações políticas. Não é o melhor dos mundos, mas ainda assim pode-se considerar normal quando não descamba para radicalismos e truculência.

O Brasil dos dias atuais, porém, vem sendo o lugar onde a polarização tem sido um fim em si própria, sem qualquer serventia para a construção de caminhos viáveis para sairmos da crise sanitária, econômica e institucional em que mergulhamos há quase uma década.

O mais grave tem se dado não nas discussões públicas entre direitistas e esquerdistas, pois estas podem ser analisadas e julgadas por todos. Inclusive por quem busca construir pontes - as verdadeiras, não as oportunistas como as ensaiadas por quem ajudou a destruir conexões há bem pouco tempo. O mais sério e absolutamente reprovável é o que se dá nos bastidores, no aparelhamento da máquina pública por sectários.

Notadamente, a Secretaria Especial da Cultura virou esse porto seguro dos radicais. Com a queda de outros nomes da linha de frente bolsonarista, substituídos pelo Centrão, restou a pasta comandada pelo ator Mario Frias como um dos últimos redutos aos seguidores das teorias de Olavo de Carvalho. E é ali, na Cultura, que revelou-se recentemente a produção de dossiês baseados nas preferências políticas de servidores para estabelecer critérios de exoneração ou promoção.

“Servidora comissionada há anos e é militante esquerdista, tirar cargo de gratificação.” “Faz movimentos na Funarte contra o governo. Levantar açãos (sic) contra o governo.” Estas são algumas das observações disparadas em planilhas enviadas à direção da Cultura brasileira, reveladas pela Folha de S.Paulo, acompanhadas do complemento de que não haveria “concursados conservadores” para as vagas. Por outro lado, funcionários alinhados às teorias olavistas e bolsonaristas são destacados. “Ator e diretor de teatro, conservador de direita. Com mais de 3 anos na profissão, 22 anos. Notório saber”, diz o levantamento sobre um dos servidores.

Não custa lembrar que a pasta da Cultura é a mesma envolvida em outras polêmicas, como a saída de Henrique Pires alegando censura após suspensão de edital para seleção de obras com temáticas LGBT. Assim como vale citar que a mordaça já foi aplicada, inclusive, ao ex-reitor da UFPel, Pedro Hallal, ao assinar Termo de Ajustamento de Conduta para que não critique o presidente da República na universidade.
Perseguição institucional ao livre exercício da opinião politica é coisa de outras épocas. De tempos que, sabemos bem, há quem nutra grande admiração.


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