Workaholic

12 de Agosto de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Caroline de Melo, acadêmica de Medicina da Famed/UFPel


Você já reparou como o tempo parece passar mais rápido de uns anos para cá? Já percebeu o quanto as pessoas parecem cada vez mais ocupadas, levando uma vida workaholic, com pouco tempo para si próprias? A sensação é a de que vinte e quatro horas são insuficientes e que qualquer pausa para respirar nesse tempo é um pecado sem indulgência.

"A tendência é evoluir", dizem, justificando o corre-corre. Contudo, algumas vezes é de se pensar nesses aspectos por outro ponto de vista.

Certa feita, antes de uma prova de meu curso, nos foram entregues pequenos envelopes. Já assustados com o próprio teste, imaginem mais esse mistério que nos foi dado em mãos, na porta da sala, antes que nos puséssemos em nossos lugares.

Trêmula, escolhi uma cadeira, peguei as canetas - sempre duas pelo medo de que alguma falhe - e segurei firme o envelope, tentando pensar no que poderia ser aquilo: um teste surpresa, uma espécie de "mini prova oral", ou, pelo lado positivo, quem sabe uma bonificação? Respirei fundo e tentei relaxar, jogando o corpo no encosto da cadeira enquanto girava uma das canetas entre os dedos.

"Vocês receberam um envelope. Peço que por favor o abram", disse a professora quando todos estavam a postos. Vazio. Uma pequena folha em branco. O que seria isso?

Nos foi pedido então que escrevêssemos três coisas que gostávamos de fazer - as mais simples possíveis -; após, que lacrássemos o envelope, puséssemos nossos nomes e devolvêssemos. Então, prosseguimos com a prova, provavelmente com toda a turma se perguntando o que significava aquilo.

Na semana seguinte, durante o estágio, aos poucos íamos sendo chamados. Os envelopes foram sendo devolvidos. Em suas folhinhas, exatamente o que escrevemos. Era um dia pós-feriadão, recordo-me bem. Surgiu então a derradeira pergunta: "Em uma semana, sendo que houve um feriado no meio, quantas dessas coisas vocês conseguiram fazer?". E parte das pessoas não tinha conseguido fazer nenhuma.

O que estamos fazendo com nosso tempo? Como estamos o administrando? Vivemos em uma realidade onde trabalhamos - ou estudamos - para viver, mas morremos para fazer isso. Deixamos de fazer coisas simples como tomar um café com alguém de quem gostamos ou mesmo reparar nas flores dos canteiros das ruas porque é mais importante atender a uma ligação ou levar para casa uma série de tarefas remanescentes do dia que, por sinal, muitas vezes postergamos e fazemos de má vontade, porque estamos nos esquecendo de nós próprios e vivendo apenas para as obrigações.

A correria e a pressão são capazes de deteriorar a saúde física e mental. Portanto, sem culpa, relaxe. Organize-se e pelo menos uma hora no dia faça isso por você. Aquela será sua hora sagrada. Ouça uma boa música, faça uma atividade que você goste, tome um banho demorado, coma seu doce favorito... Não descuide de suas obrigações, mas, sobretudo, não descuide de você.

Como costumo dizer: você é a única pessoa que jamais se abandonará, do nascimento à morte. Portanto, ame-se.

Dedico esse texto especialmente aos colegas que reiniciarão as atividades na próxima semana, desejando muito sucesso nesse recomeço.

 


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