Artigo

Vírus, perplexidades

30 de Março de 2020 - 07h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Paulo Rosa - Hospital Espírita, Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental - prosasousa@gmail.com

Não há como não estar perplexo. Nenhum de nós sequer sonhou com o que estamos vivendo. A ameaça universal de um vírus mortal, cidades sem gente na rua, todo mundo recolhido a suas casas, cuidados extremos para não nos contagiarmos, criar um novo dia a dia para levar a vida, inventar novas modalidades de convívio com filhos e parceiros. Ou em como ajudar a quem precisa mais. Ou novos modos de estar só e descobrir-se nas relações consigo mesmo. Ou reinventar-se, ao cuidar de um gato, um cachorro. Ao olhar por uma planta.

Em A guide for the perplexed, 1977, livro de E.F. Schumacher (1911-1977), um tipo curioso, economista e filósofo, propõe aos perplexos um método de exame dos problemas, que engloba análises detalhadas do mundo interno (microcosmo) e externo (macrocosmo), na expectativa de construir encaminhamentos os mais arrazoados. Perceber-se perplexo é qualidade que não se pode perder, a perda é grave, pois essa capacidade de assombrar-se é algo importante para permanecermos humanizados. A banalização do mal, p.e., pode tornar-nos incapazes de nos abismarmos com o próprio mal, como se vê por aí. Do mesmo modo, cristalizar-se na perplexidade pode paralisar completamente o sujeito, como acontece com não poucos mandatários.

Há valor em nos descobrirmos perplexos, mesmo com o risco de cairmos na estagnação. É o que nos leva a agir sob a luz da prudência. E a prudência é uma real ousadia. Costuma ser confundida, em apressados, com parvoíce, inabilidade. Há que cultivar a prudência seiscentista do Gracián, jesuíta espanhol que pagou caro ante a Inquisição por suas ousadas prudências, em Arte de prudência, aforismos tidos até hoje como vivos, há quatrocentos anos.

Um aforismo: sentir com a minoria e falar com a maioria, itálicos do autor. Gracián é politicamente atual: “querer ir contra a corrente é tão impossível para o desengano quanto é fácil para o perigo. Somente Sócrates poderia empreendê-lo. Tem-se por agravo o dissentir, porque é condenar o juízo alheio: multiplicam-se os desgostosos, seja pelo indivíduo censurado, seja pelo que o aplaudia: a verdade é de poucos, o engano é tão comum quanto vulgar. Tampouco pelo que fala em público se há de perceber o sábio, pois ali não fala por voz própria, mas pela ignorância comum, por mais que a esteja desmentindo seu íntimo; o lúcido tanto foge de ser contradito quanto de contradizer: o que tem de presteza na censura, tem de lentidão na publicidade dela. O sentir é livre; não se pode nem se deve violentar; recolhe-se ao seu sagrado silêncio, e, se alguma vez se atrever, será à sombra de poucos, e prudentes”.

Não bastasse o vírus, o país está perplexo por ter que se haver com o que se ouve. Há políticos que se acham Sócrates. Delfim Moreira (1919), ex-presidente nosso, enlouqueceu. Barbas de molho, em álcool.


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