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Vinde a mim as crianças

03 de Agosto de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

E se fosse uma criança? A gente gosta de mostrar que tem sensibilidade e, sem demora, traz no discurso a palavra ou a imagem da criança: inocente, pura, uma anjinha. A preocupação com os outros deve fazer parte de nossa fala pública. E referenciar crianças tem seu valor. Crianças são o futuro, têm toda uma vida pela frente, não têm maldade. Se não revelarmos nossa sensibilidade falando com ares zelosos e altruístas: crianças, eu amo as crianças - seremos tachados de brutos, insensíveis, materialistas (crianças, em tese, não geram receitas, só despesas).

A criança sempre em primeiro lugar, menos aquela que enche a paciência pedindo esmola, pobre e preta, se chame Ágatha, Lucas ou Raíssa ou seja filho de um trans. O amor pelas crianças é seletivo, mentiroso, mas funciona no palanque, nos programas da TV e nas homilias. Família é outra palavra mágica. Quer ser ouvido? Deseja alcançar admiração? Então diga: a família é o mais importante. Tudo pela família! Todavia, nem toda a família merece consideração: aquela que não se enquadra na foto de pai e mãe casados e filhos biológicos, deve ser condenada. Se for família de trans, homoafetiva, múltipla, então? Que nojo! Deve ser destruída. Mas a palavra pode eleger um presidente e dar voz a um pastor abjeto.

Outra expressão mágica que nos atribui instantaneamente bondade, retidão e senso de justiça é: sou cristão. Quem se diz cristão é tudo de bom, tem passaporte para fazer o que lhe der na veneta em nome da fé. Inclusive destruir e discriminar crianças, famílias e trans. A expressão dita com uma bíblia nas mãos é a redenção dos pecados e é fundamental para erguer templos e catedrais, encher contas bancárias e eleger deputados e presidente. Porém, alguém é proprietário do mercadinho onde se vende com exclusividade o combo: criança, família e fé cristã. Quem? Ora, o chefe dos negócios e da família, o pai-patrão, a imagem e semelhança de Deus, o que diz o que é liberdade e justiça, que abona a violência e, coçando o saco, define o que é ser homem e o que é ser mulher.

Agora, vivemos na pele uma tragédia, a pandemia que nos retém e que muda nosso olhar, nossa mão, nossa vida. As escolas estão fechadas para evitar o irreversível. Por isso, as crianças estão em casa, guardadas e, às vezes, incomunicáveis. Já temos parte do combo: criança e família: a casa que protege. Por outro lado, a violência doméstica e contra crianças aumentou. Em famílias que se autoproclamam cristãs. Combo completo. A violência contra mulheres e crianças, em sua maioria, se dá dentro de casa. Não existe violência doméstica que não se reflita em todos os membros da família, seja como representação do todo-poderoso masculino, seja como da coagida sujeição feminina. O pior da quarentena não está na crise do comércio, da produção, no desemprego ou na interrupção do futebol. Está no fechamento das escolas, uma medida de prevenção inquestionável, mas que dá vazão ao exercício da estupidez em um país em que a mediocridade, a fé, a mentira e o machismo são virtudes.

O vírus divino do machismo é o que autoriza a violação das filhas e enteadas, a porrada na mulher, a surra no menino. Os machos, ao mesmo tempo que que desprezam a ciência e os saberes, se refestelam na impunidade fingindo sensibilidade e orando. A escola é o lugar em que crianças e adolescentes podem contar o que se passa na escuridão de suas casas. É o espaço em que professoras identificam alunas e alunos que sofrem violência. A família é, por vezes, o último lugar em que uma criança e uma mulher deveriam estar. Quando um macho repete a fala atribuída a Jesus, para fingir devoção e fé, podemos intuir o pesadelo que a criança e a mulher vivem no lugar que deveria protegê-las. Não compre o combo do mercadinho.


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