Artigo

Vida poética, amor gauche

10 de Abril de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel

As coisas deveriam ser simples, não? Você planeja, esboça, treina, se prepara, imagina e, no fim, tudo teria que ocorrer conforme o esperado, concorda? O pênalti deslocando o goleiro, a entrevista de emprego, o artigo submetido para a revista, a cantada infalível, a defesa de TCC, o encontro perfeito, o beijo inesquecível, a cobrança de falta na gaveta, o casamento com a princesa/príncipe dos sonhos... Todos os dias, tentamos resolver as nossas vidas em planos meticulosamente elaborados, seja caminhando por duas horas na beira da praia em tempos normais, olhando as ondas se quebrando incessantemente, seja no banho ou numa conversa com alguém que pode estar cara a cara ou do outro lado do computador no outro lado do mundo. Tudo fácil e simples: vou fazer isso e aquilo e o mundo vai girar totalmente conspiratório da maneira como eu quero. Entretanto, como diria o finado Garrincha, só falta combinar com os russos (os outros).

Aquele olhar penetrante, encantador, apaixonante, que imaginamos ser para nós, na verdade é para outro. Aquelas palavras envolventes, sedutoras, apaixonantes, na verdade, raramente são elaboradas quando pensadas na gente. Aquela boca linda, cativante, arrebatadora, que parece tanto querer um beijo, na verdade, não quer o seu beijo. Aquele cabelo preto, loiro ou ruivo, na verdade não está sendo primorosamente embelezado para os seus olhos, mas sim, para o olhar do príncipe encantado, tão aguardado, e que não é você. E o que fazer quando se descobre que aquele sentimento que você sente não condiz em nada com o que você imaginava que pudesse ser algo recíproco? Nada.

Ou melhor, quase nada: a única coisa que se pode fazer é sugar toda a energia positiva e mágica desse amor meio Charlie Brown para o fundo do pulmão e do coração e expirar tudo aquilo que você gostaria que fosse, mas não é, para os ares. E, depois de fazer isso inúmeras vezes, com tudo aquilo que foi lançado para o seu interior, você apenas transforma toda essa energia em inspiração e, então, você não será a princesa ou o príncipe encantado da pessoa desejada naquele momento, mas sim de outros, que serão ainda mais amados e desejados com a energia acumulada. Uma viagem, não?

Uma viagem que nem sempre é possível de realizar com deslocamentos, lendo livros ou vendo filmes. É uma viagem digna dos melhores romances de D.H. Lawrence, F.S. Fitzgerald, Erico Verissimo, Jorge Amado ou Chimamanda Adichie. É uma viagem tão envolvente quanto as poesias de Jorge Luiz Borges, Carlos Drummond, Pablo Neruda ou Vinícius de Moraes. É a viagem para o nosso interior, onde pouquíssimos têm acesso. É uma viagem que, penso eu, muitos de nós estamos fazendo em nossos pensamentos e lembranças nesses tempos de confinamento: as lembranças de paixões e amores passados misturados com as saudades de tudo que ainda sequer vivemos. A recordação do romance lido há uma década, há uma semana e dos que serão lidos daqui a um mês, um ano. Saudade das viagens feitas sozinho ou acompanhado e das que ainda serão percorridas consigo mesmo ou com alguma companhia misteriosa que ainda nem conhecemos e que, talvez, nem exista. É por isso que essa vida é tão poética e o amor é tão gauche, como já bem anunciava o poeta.


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