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Victor Hugo: do grotesco ao sublime

06 de Julho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Thiago Perdigão, compositor e escritor

Filho de um general do exército de Napoleão, Victor Hugo tornou-se escritor ainda jovem, tendo sido premiado pela Academia Francesa por um de seus poemas, em 1817, com apenas 15 anos. Quatro anos depois publicou seu primeiro livro de poesias, intitulado Odes et poésies diverses (Odes e poesias diversas), através do qual ganhou uma pensão do rei Luís XVIII. Mas foi sobretudo em 1827, com o prefácio de seu longo drama histórico intitulado Cromwell, que Hugo veio a se tornar famoso. Também conhecido pelo nome Do grotesco ao sublime, este prefácio expressou a necessidade da libertação de variadas restrições comuns às tradições associadas ao classicismo e, por isso, o prefácio foi considerado também o manifesto do movimento romântico na literatura francesa.

A ideia central do importante prefácio gira em torno do fato de que três tipos de gêneros poéticos correspondem a três épocas distintas: o lírico corresponde ao homem primitivo; o épico, ao homem do período helênico; e o dramático, aos modernos. Sobre o lírico, escreve: "eis o primeiro homem, eis o primeiro poeta. É jovem, é lírico. A prece é toda sua religião: a ode é toda sua poesia" (Prefácio de Cromwell, p.17); enquanto sobre o épico assevera que "a poesia reflete estes grandes acontecimentos; das ideias ela passa às coisas. Canta os séculos, os povos, os impérios. Torna-se épica, gera Homero" (id.,p.18). Já o próximo gênero fará como "a natureza, a misturar nas suas criações, sem entretanto confundi-las, a sombra e a luz, o grotesco e o sublime" (id.,p.27): trata-se do dramático, que para ele tem referência nas obras de Dante, Milton e Shakespeare, até Moliére, Racine e Goethe. As obras por estes autores produzidas teriam como elemento unificador precisamente o peculiar equilíbrio entre o sublime e o grotesco, dando novo foco a este último: com efeito, segundo Hugo, "a antiguidade não teria feito A bela e a fera" (id., p.39). E, de acordo com isso, pensando mais a fundo, sua perspectiva não nos mostraria que a arte moderna, desde então, tomou precisamente o caminho por ele observado, na medida em que expandiu e aprofundou ainda mais, através do século XX, o "grotesco", contrapondo-o ao "sublime" legado pelas clássicas tradições?

Seja como for, deixemos um pouco de lado a Estética e notemos como, curiosamente, também a vida de nosso escritor transitou, tanto quanto sua arte, entre o grotesco e o sublime. De fato, Hugo casou-se com sua amiga de infância, Adèle Foucher; o casamento, porém, gerou o desgosto de seu irmão, Eugène, que era apaixonado por Adèle: em decorrência disso, Eugène enlouqueceu e foi internado em um hospício, vindo mais tarde a falecer por complicações daí oriundas. Em outra ocasião, a censura recaiu sobre sua obra Marion do Lorme, em 1829, porquanto ela foi considerada "muito liberal" e "uma crítica a Carlos X". Para terminar, sua esposa recusou-se a ter mais filhos e concedeu a Hugo liberdades tais que, quando associadas à sua natureza sedutora, conduziram-no à franca libertinagem, levando-o a ligar-se indistintamente a atrizes e aristocratas, sem se separar de Adèle. Esta, por sua vez, iniciou um relacionamento amoroso com o crítico literário Saint-Beauve. Mas, em meio a tantas situações grotescamente dramáticas, eis que algo de sublime também pôde tomar alguns de seus dias: no ano de 1832, Hugo mudou-se para um apartamento instalado na Praça de Vosges, onde foi visitado por escritores como Honoré de Balzac, Alexandre Dumas e o compositor Franz Liszt. Além disso, quando morreu em 1885, após 15 anos em exílio político, permaneceu vários dias exposto sob o Arco do Triunfo, quando então foram vê-lo mais de um milhão de pessoas.


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