Opinião

Véspera

06 de Agosto de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Lisiani Rotta
lisirotta@hotmail.com.br

Não sei o que me encanta mais, se a história em si ou o modo como é contada. Se a criatividade, a trama impregnada de tensão e suspense ou a beleza, a dança irretocável das palavras. Se a sensibilidade ou a honestidade de sentimentos explicitada por expressões meticulosamente pinçadas como os passos de um ballet. Como saber se é a música ou a coreografia quem nos toca mais a alma, quando o ritmo e o movimento estão em perfeita harmonia?

Depois de ler Tudo é rio (2014), primeiro livro da escritora Carla Madeira, impressionada com a escrita poética e a força vital que ela dá aos personagens, me vi ansiosa pelo próximo romance. Véspera é o seu terceiro livro, ainda não li o segundo, A natureza da mordida (2018), mas, está na minha listinha, porque, pelo que pude observar, a autora se supera a cada obra. Carla Madeira tem uma capacidade impressionante de, com poucas palavras, descrever as personalidades mais complexas e despertar todo o tipo de emoção no leitor. Seus personagens parecem estar vivos diante de nós, com emoções e reações autênticas. Véspera nos conta a história de dois irmãos gêmeos, seus pais, amigos e respectivas namoradas. Ilumina o passado remoto como um prenúncio do presente. Coloca-nos diante de personagens humanos, repletos de sentimentos contraditórios, como qualquer um de nós.

Por meio de uma dúvida inicial: como se chega ao extremo? Nos deparamos com o passado sombrio, carregado de acontecimentos, traumas e frustrações capazes de impedir que uma jovem mulher exerça a maternidade. Inveja, ressentimentos, ciúmes, conflitos entre gerações, amor, desamor, luto e abandono nos levam a refletir sobre a condição humana e seus momentos de loucura. Como uma mãe é capaz de abandonar um filho de cinco anos numa rua movimentada e, minutos depois, se arrepender? A resposta está na véspera.
Carla Madeira foi a escritora mais lida no Brasil em 2021 e vencedora do Prêmio Sesc.


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