Artigo

Vergonha!

06 de Maio de 2014 - 08h20 0 comentário(s) Corrigir A + A -

por Marlise Flório Real

Talvez eu estivesse apenas com sete ou oito anos de idade quando minha mãe comprava algumas flores artificiais e eu queria uma linda borboleta azul, muito pequena de plástico, mas cabia no meu desejo de criança. Como recebi um não, peguei sem que ninguém visse a minha borboleta colocando-a no meio das flores. Fiquei tensa e até chegar em casa só pensava no meu ato errado: tinha roubado! Senti uma vergonha incrível e já estava arrependida. Quando minha mãe abriu o pacote das flores, contei o que tinha feito. Senti mais vergonha ainda! Um olhar de desaprovação me encheu de outro sentimento intenso de vergonha! Ela não precisou me dizer nada. No outro dia fomos na loja e eu tive que devolver para o gerente o meu roubo. Mais vergonha! Ele nem sabia do que se tratava, mas eu sabia. Era o que bastava. Eu tinha feito algo errado e meu sentimento de vergonha tinha servido para que eu jamais repetisse o que fiz, mais ainda pelo ensinamento de minha mãe que junto comigo enfrentou a situação constrangedora.

Fico pensando quantas crianças já fizeram isso e quantos pais ajudaram na retratação e no reconhecimento do erro. Fico estarrecida quando sei que parece comum para alguns quando os filhos chegam da escola com material de outros e não são orientados a devolver, porque justificam que acontece e que essas coisas são trocadas na sala de aula. Fico ainda mais chocada quando adolescentes pegam coisas em supermercados e contam o quanto espertos foram. Nada disso é visto como roubo. Parece tudo insignificante, mas essas crianças e esses jovens cometem atos errados e não sentem vergonha.

Se olharmos para outros fatos como os que acontecem em toda a sociedade envolvendo pessoas ditas responsáveis e que nos representam em diversos lugares vemos atos errados e roubos que ficam escancarados em nossa cara e nada acontece. Vergonha? Ninguém sente mais! Tudo é justificado: se somos roubados, podemos roubar e ninguém irá sentir. Razões não faltam, seja para a criança que trouxe para casa coisas do colega ou da própria escola, ou sejam os jovens espertos que podem pegar produtos em lojas porque os preços são um verdadeiro roubo, ou mesmo os que roubam dinheiro que vem de negócios ilícitos. Errado, errado e meio!

Outro dia numa das palestras que fiz sobre relacionamento familiar e seus conflitos, quando refletíamos sobre o mundo que deixamos para as novas gerações, uma mãe bem jovem ainda, assinalou: que crianças e jovens estamos deixando para esse mundo. Que valores começam a reger essas vidas? O que estamos ensinando? Como ensinamos?

É muito preocupante tudo isso. Chega a ser triste, pois adultos perdidos sequer protegem seus filhos, muito menos ensinam valores ou dão limites sobre o que é certo e errado. Tudo parece ser permitido, desculpado e se deixa passar para que não haja incomodações ou porque se conta com explicações falsas, consideradas positivas. Se ensina aos pequenos que podem mentir, esconder, não contar e consequentemente está se ensinando a não sentir vergonha por nada. Ouço as mais variadas justificativas para encobrir o que é errado e uma geração de adultos que não querem ensinar o básico e o correto, por conta de que não querem ver seus filhos sofrerem ou por conta que são atos muito pequenos.

Roubo é roubo! As penas podem ser diferentes, mas é errado da mesma maneira. Não importa se foi a minha borboleta ou se foi um caminhão de dinheiro. E a vergonha precisa ser sentida para que o ato fique marcado e seja corrigido, assim como o que não nos pertence deve voltar ao seu lugar, pelas mãos de quem fez.

Mas não é bem assim que acontece na maioria das vezes e tudo vira em grande engodo, uma grande farsa e personalidades sem caráter se formam e se criam em todos os lugares.

Essa mãe tem razão quando se pergunta sobre o que ensinamos aos nossos filhos pequenos e que criaturas estamos deixando neste mundo. Depois queremos consertar e depois pode não dar mais tempo nem para remediar.

A vergonha é a consciência de que fizemos algo errado e é necessária para estabelecer limites durante a infância. É um sentimento doloroso que permite o reconhecimento de ações inadequadas, mesmo quando não descobertas. Está  presente nos adultos, embora hoje possamos nos deparar com uma ausência preocupante desse sentimento.


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