Opinião

Ventadour: o arauto do amor cortês

21 de Maio de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sérgio Cruz Lima, colaborador

Trovadores são poetas que, nos tempos medievais, levam sua arte de castelo em castelo, apenas acompanhados de seu cavalo e de seu alaúde. Bernard de Ventadour, um trovador provençal do século 12, é um deles. Nascido no castelo d´Eble, entre os anos de 1148 e 1150, o castelão é o visconde Eble III de Ventadour, daí o nome do poeta – Bernard de Ventadour.

Não há nada de muito preciso sobre a vida de nosso poeta, salvo referências em seus poemas a personalidades da época. Uma antiga biografia provençal, bastante romantizada e escrita meio século mais tarde por Uc de Saint-Circ, atribui-lhe origem humilde, dando-o como filho de um homem d’armas e de uma padeira do castelo no qual nasceu. Discípulo de seu mestre e protetor, o visconde, também ele consagrado trovador, conta a tradição que Ventadour alimenta férvidos amores ocultos pela viscondessa Marguerite de Turenne. Ao ser descoberto, é expulso da mansão. Tudo indica que algumas das canções dedicadas por Bernard à viscondessa ultrapassam as regras da ética familiar e são consideradas excessivas pelo marido possessivo. Eis a razão do bota-fora!

Informa ainda a tradição que, ao ser expulso, Bernard é acolhido na corte da duquesa Eleonora da Aquitânia, na qual serve como líder dos trovadores até a boda de Eleonora com Henrique II, rei da Inglaterra. Não visto com bons olhos pelo rei inglês, ele viaja por várias cortes europeias, transferindo-se finalmente para a corte do conde de Toulouse. Como o seu contemporâneo Bertran de Born, Bernard termina os seus dias recolhido ao mosteiro de Dalon, local onde morre em 1195.

A poesia de Ventadour não merece dos seus contemporâneos a mesma acolhida que a posteridade crítica lhe consagra, sobretudo a partir do romantismo. Nem os seus pósteros imediatos do século 13 lhe dão maior atenção, observando-se a preferência em torno dos nomes de Arnaut Daniel e de Giraut de Bornelh. Mas, muito embora não tenha sido citado por Dante no seu De vulgari eloquentia, Bernard Ventadour é considerado por críticos importantes como um dos precursores da poética do dolce stil nuovo de Dante e seu círculo de poetas. A nota percussora não implica no virtuosismo nem na visão metafísica peculiares aos poetas florentinos, mas na concepção espiritualista do autor, presente em todas as canções de Ventadour. Por certo, o poeta conheceu glória e prestígio em vida: muitos dos trovadores de seu tempo o mencionam em suas canções e nele se baseiam em suas obras, traduzindo-as e adaptando-as, ainda na Idade Média, para diversas outras línguas.

Da produção do poeta restam apenas 41 poemas autênticos. Em quase todos, dá testemunho de sua acendrada crença no amor, não apenas no gozo dos sentidos, mas também do entendimento. Também crê nas virtudes inspiradoras do sentimento amoroso, ao escrever e cantar, em uma de suas canções em língua provençal: “Non es meravelha s`eu chan / melhs de nul autre chantador”. Ou: “Não é maravilha que eu cante/ melhor que qualquer outro cantador”. É a mais clara confissão de Ventadour: a paixão amorosa é a fonte da sua poesia.

Pela intensidade emotiva e pela força expressiva de sua linguagem, nosso poeta transcende a convenção corrente do amor cortês e do trobar leu, ou seja, o “poetar ligeiro”. Sua poesia é idealista e apaixonada, mais do que apenas a referência a um amor platônico, como era corriqueiro na época. Bernard vai além. Usa passagens de nítida sensualidade, ora ao descrever o corpo da mulher amada, ora ao demonstrar o desejo que ela lhe desperta. São constantes em sua obra menções à mitologia greco-romana, metáforas bem estruturadas, métrica perfeita. Para o poeta, cantar é amar, sofrer, morrer, renascer. Coube a Alfred Jean Roy, que considera Bernard Ventadour um dos maiores líricos provençais, destacar a nota trágica de sua poesia, pouco observada em outros trovadores medievais.


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