Artigo

Veiga, o Professor

29 de Junho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo aulo Rosa,
Hospital Espírita, Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental. prosasousa@gmail.com

Luiz Antonio Veiga de Azevedo (1946-2020) foi, na essência do termo, um Professor. A etimologia da palavra latina tem, no caso do Veiga, um significado a mais: vinda do latim antigo, expressava não só os que ensinavam em público, mas ainda quem professava o cristianismo. Nada mais justo para com ele: desde os vinte e um anos desempenhou, com esmero, a simultânea atividade de ensinar física e matemática e de viver sua vida pessoal e reservada na forma cristã, no mais elevado sentido da expressão.

O hoje cinquentenário Curso Veiga tem, no seu íntimo, a alma do Veiga. Seus alunos costumam falar do quanto era fácil sentir-se cômodo na presença do Professor, por delicada que fosse a situação. Todos sentiam a liberdade de trazer suas questões, muito além de problemas educacionais. Queriam saber o que ele pensava sobre a vida, os sentidos, os significados do viver. Mais, é comum ouvir que a característica do mestre era o acolhimento incondicional. Sabia ouvir como ninguém, dizem dele. Em sintonia com seu caráter estava a disponibilidade emocional _ pela atitude transmitia ter o tempo do mundo para ouvir seus alunos, ex-alunos, alunos por vir e a todos. Disse-lhe que tinha ouvidos freudianos _ abertos, sem julgamentos _, ele sorriu.

De onde esse saber colocar-se diante do outro? Vejo o alicerce na gratidão. Veiga foi um homem grato. Gratidão no sentido de são Tomás de Aquino, em seu tratado sobre o assunto, onde, observa Póvoa, tem três níveis: o mais superficial é o do reconhecimento intelectual da gratidão, expresso, p.e., no inglês thanks; no nível intermédio reconhece-se ter recebido uma graça e a gratidão se expressa no espanhol gracias. O nível profundo e decisivo só teria cabida no português, com o obrigado. Este é o nível do vínculo emocional, aquele onde a presença da gratidão marca um compromisso entre os sujeitos. Percebi que o Veiga navegava nestas profundidades.

Mas, os conhecimentos matemáticos não se limitaram à sala de aula. A perspicácia sobre os números e a memória privilegiada o levaram a tornar-se um jogador destacado de bridge, o secular jogo de cartas inglês, do qual foi campeão brasileiro e sul-americano. Esse carteado não se restringe à argúcia intelectual, requer parceiro de jogo afetivamente sintonizado, para alcançar a vitória. Por isso, foi exímio e leal competidor.

Uma nota histórica. O primeiro passo como professor teve a participação decisiva de seu avô. Este morava na Miguel Barcelos e, generoso, cedeu ao neto a sala da casa para que ali instalasse o local de trabalho. Veiga não parou mais. Expandiu-se ao longo dos anos, mas conservou, por grato, o local de origem. Desse modo, três gerações estão envolvidas no processo de educar. Hoje, como Grupo Educacional Veiga, chegou à cidade de Rio Grande.

O Professor Veiga nunca perdeu tempo em criticar. Acolhia e aguardava até poder elogiar, enquanto prospectava o futuro.


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