Editorial

Uma triste lição de Natal

A garota Adrielly dos Santos Vieira, dez anos, aguardou por oito horas por atendimento no Hospital Municipal Salgado Filho

30 de Dezembro de 2012 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Um problema recorrente e, muitas vezes, silencioso saltou aos olhos logo na noite de Natal: a irresponsabilidade de médicos e de gestores de saúde da rede pública brasileira.

Os noticiários foram estampados com o retrato de uma tragédia anunciada, encarnada por uma criança. Na madrugada do dia 25, a garota Adrielly dos Santos Vieira, dez anos, aguardou por oito horas por atendimento no Hospital Municipal Salgado Filho depois de ter sido baleada na cabeça em uma favela da zona norte do Rio. A demora ocorreu porque o único médico escalado para a noite, o neurocirurgião Adão Orlando Crespo Gonçalves, havia faltado ao plantão.

A criança permanece internada em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital. Já o médico será investigado por omissão de socorro pela Polícia Civil, pelo Ministério Público Estadual e pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj).

O caso triste trouxe à tona a polêmica sobre a responsabilidade e as atribuições dos profissionais da saúde, sejam eles administradores ou técnicos. Ao mesmo tempo em que torce pela recuperação de Adrielly, a sociedade questiona como chegamos a tamanho descaso com a vida humana.

Sabe-se que os recursos para o financiamento de saúde são escassos, seja qual for o ente federativo responsável pelo repasse. A cada dia vemos crescer as filas nos postos de saúde e pronto atendimentos. Porém, o que mais indigna a maioria dos pacientes é saber que, para além da falta de verbas, muitas vezes falta vontade de profissionais que cumprem menos carga horária do que deveriam.

O Sindicato dos Médicos alegou, no caso descrito, a escassez de trabalhadores não só neste hospital, mas em outras instituições do Rio de Janeiro. Enquanto isso, a prefeitura tenta se eximir da culpa repassando-a a seus servidores. Para acabar com o problema, promete adotar o controle biométrico em todos os hospitais administrados pelo município.

As perguntas que ficam, no entanto, são: se todos conhecem a realidade da cidade e das instituições em que trabalham, não deveriam fazer o máximo para contornar eventuais lacunas orçamentárias e de pessoal? Como um gestor projetou uma escala de trabalho com apenas um médico de determinada especialidade sem deixar outro de sobreaviso para a hipótese de alguma emergência? O que leva um profissional, que deveria ter sido formado para cuidar de pessoas, a se ausentar de trabalho mesmo com consciência dos graves danos que poderia causar?

É nítida a necessidade de se repensar a questão da saúde no Brasil para que nenhum cidadão tenha de ver um filho agonizar em uma sala de espera como a família Vieira fez, em plena noite de Natal. Investimentos são essenciais e urgentes, mas não são tudo. É indispensável que se pense também sobre o papel e a formação dos servidores que atuam na área.


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