Editorial

Uma pandemia de desinformação

23 de Junho de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Se há alguns anos estudantes de jornalismo fossem confrontados nos bancos acadêmicos com a hipótese de enfrentarem uma realidade como a atual em suas profissões, talvez abandonassem o sonho do diploma e da carreira. Ou, pelo menos, dariam boas risadas daquilo que ouviriam. A referência aqui nem é ao acelerado processo de encolhimento das redações enquanto cada vez mais jovens saem das universidades buscando oportunidades - este seria motivo para chorar. Mas o que causaria espanto é a demanda existente nos dias atuais por desmentir absurdos.

Que dentro do trabalho jornalístico está, fundamentalmente, a checagem de fatos, isso é inegável. Contudo, a cada dia que passa as equipes profissionais de comunicação precisam se dedicar a atestar coisas quase inimagináveis como, por exemplo, que pessoas vacinadas contra o coronavírus não estão sujeitas a pegarem sinal de internet (wi-fi). Sim, tamanha bobagem circula livremente em grupos de mensagens e, frente a tanta gente crendo ou pelo menos cogitando a possibilidade, tem sido necessário que a imprensa se dedique a refutar com base em dados e análises de especialistas.

Em entrevista recente ao jornal A Crítica, do Amazonas, a professora da UFPel e da UFRGS Raquel Recuero, doutora em Comunicação e coordenadora do Laboratório de Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais (Midiars) afirmou que "o Brasil é vítima de uma pandemia de desinformação". Mais do que a legitimação de informações distorcidas, impulsionada pela radicalização que distancia parte da população do jornalismo profissional e de fontes confiáveis, a especialista questiona o espaço dado à desinformação. Inclusive dentro da própria imprensa. "Se a pessoa está falando um absurdo, a gente não pode trazer isso como algo que pode ser ouvido pela população", ressalta Raquel.

Evidente que a avaliação da pesquisadora traz uma crítica válida ao jornalismo profissional. Afinal, embora muitos veículos estejam aprendendo a lidar com essa "pandemia de desinformação" e tentando fugir das armadilhas de colocar em pauta alguns absurdos trazidos ao debate, inclusive, por autoridades, fato é que ainda é preciso avançar. A dificuldade, no entanto, está justamente em encontrar a melhor forma de encarar este desafio, já que há quem defenda como essencial que o jornalismo se dedique a esclarecer que imunizastes chineses não implantam chips com GPS. Mas, ao fazer isso, a imprensa não está desviando escassos e qualificados recursos humanos que poderiam - e deveriam - se concentrar naquilo que realmente merece ser apurado?


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