Artigo

Uma caixa mágica

14 de Setembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Caroline de Melo, acadêmica de Medicina da Famed - UFPel

Dia desses acordei com uma vontade que considerei bastante aleatória dentro de minha rotina atual: ver televisão. Parece algo simples e corriqueiro, mas há tempos não parava para assistir a nada. Quando falo isso, não me refiro ao advento das smart TVs que hoje em dia habitam diversos lares e nos propiciam, assim como em vários dispositivos, procurar streamings pelo mundão da internet. Eu queria ter a sensação de sentar no sofá, ligar a TV e ficar zapeando por canais, tal como fazia há alguns anos.

Hoje em dia muitas pessoas - inclusive eu - são bastante críticas de muitas coisas que passam na TV. Quanto a mim, possuo a sensação de que atualmente muitos conteúdos parecem superficiais ou mais do mesmo, de forma que tudo parece ter perdido um pouco da graça. Mas de repente, com a sensação de ligar o aparelho e ficar passeando entre emissoras, comecei a recordar de minha infância. Ainda estou na faixa dos vinte e poucos, mas me lembro que tinha em meu quarto um daqueles televisores antigos, sem controle remoto, cujo maior avanço era a tela em cores. Recordo direitinho do cheiro estranho que algumas vezes o eletrônico exalava quando passava muito tempo sem ser desligado, além de um pequeno ruído que permanecia ao fundo do áudio do que era assistido.

A TV era minha companheira das noites nas quais eu tinha medo do escuro e eventualmente minha mãe ia até meu quarto para desligá-la. Também era a responsável pelos sons que embalavam minhas brincadeiras, meus escritos de infância numa máquina de escrever e até mesmo minhas tarefas da escola, para que se tornassem um pouco mais leves. E até a vida adulta de certa forma ela foi minha companheira, com suas imagens tilintando enquanto a insônia pegava. Porém, com o passar dos anos, a magia foi se perdendo. E acabou por ressuscitar em um dia qualquer no final de semana, quando acordei bem mais cedo que o habitual e decidi rememorar tais situações.

As histórias envolvendo o mágico aparelho cheio de vida transcendem tempos. Na minha família e provavelmente na de algum dos leitores também, certamente estas já foram comentadas por gerações mais antigas ou mesmo revistas nas memórias. Houve um tempo no qual a televisão era algo que reunia famílias, vizinhos e amigos. Poucos possuíam uma em casa e são diversos os relatos de pessoas até mesmo debruçadas na janela para assistir a alguma novela ou noticiário. Antigamente, como se sabe, as telas não possuíam cores, mas isso não era impedimento para que de alguma forma elas surgissem: quem nunca ouviu a história de algum parente que nos tempos mais antigos chegou a colar papel celofane colorido no visor de sua TV? Certamente poucos. Aos mais jovens, questiono: quem já precisou ajustar o seletor da antena VHF/UHF para ver determinados canais?

Hoje em dia, com novas tecnologias e concepções, o aparelho está deixando de ser o que era em sua essência para se tornar mais um protótipo de computador, com recursos infindáveis que por vezes confundem até mesmo os mais familiarizados. Mas a nostalgia? Essa é capaz de continuar, independentemente de quantas mil coisas novas puderem invadir nossas vidas e casas.


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