Artigo

Um taura de Monte Bonito no planeta Marte

10 de Agosto de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Capítulo I.

Esse pessoal da cidade que estuda é incansável, está sempre inventando coisa, fuxicando aqui, descobrindo uma coisa nova ali, projetando para mais adiante. Admiro muito quem se dedica aos estudos. Se não fosse por esse povo, ainda estaríamos com medo de trovão, sem repelente, sem ventilador para as noites abafadas, sem trator a diesel e sem as técnicas modernas de plantio e manejo do gado. Além do que, os mandinhos ainda estariam morrendo às pencas de disenteria e sarampo.

Eu nunca fui muito das letras, deixei a escola antes de entrar no secundário para trabalhar no campo, mas sempre que posso leio um livrito e o Diário que o compadre da pulperia me empresta. Minha netinha, sim, essa se foi pra cidade para estudar na universidade. Ficava todo exibido quando falava para as visitas. Elas perguntavam: onde anda a fulaninha? Eu respondia: na universidade. Na cidade grande. Ficavam embasbacadas só em ouvir. Isso que no tempo dela, uma mulher na universidade era coisa rara. Graças ao bom patrão do céu, hoje é diferente e muita gente pode ingressar na faculdade, gente pobre, negra, índia e a gurizada aqui da colônia.

Minha neta, quando me visita, traz sempre umas revistas novas. Gosto muito da National Geographic, que nem sei pronunciar direito e devagarito escrevo o nome copiando letra por letra o título da revista para por aqui. A la pucha, aprendo muito. Pois fiquei sabendo que gente da tal da Nasa e de outros países, além de uns riquinhos atolados em dinheiro, queriam ir para Marte. E morar lá. Se não cuidavam da própria moradia, para mim era mais do que certo, iriam destruir o planetinha vermelho assim que colocassem os pés. Sujavam os rios, empestavam o ar, derrubavam as matas, jogavam veneno, exploravam um montão de viventes e ao invés de planejar uma recuperação da natureza, matutar outro tipo de economia e jeitos de ganhar dinheiro que não prejudicassem os paroquianos, queriam fugir para Marte. Mas que vontade que me deu de pegar o relho. Bento, meu cusco, parecia ler comigo e reagia conforme o meu humor.

Não fazia muito, tínhamos nos aventurado pela Lua. Então, não é que o bichano de tanto rodar em torno da minha espreguiçadeira nova, me convenceu a viajar para Marte. É longe, eu lhe disse, e as temperaturas chegam a 60º negativos. Um frio de rachar e de renguear cusco, acentuei. Bento me mirou como se me desafiasse: não existe longe para um taura que vai até os confins da estância em busca de uma ovelha desgarrada; não existe frio para quem já está acostumado com o vento minuano e com as geadas das madrugadas. Um gaúcho de verdade, vai em ceroulas para Marte e leve junto o cusco do coração. O que contestar?

Arreglamos a funda imensa repousada junto às duas árvores gêmeas na subida do cerro perto do açude, que nos serviu para ir a Lua. Ajustei a espreguiçadeira nova junto ao suporte de couro. Pelo meu conhecimento, o mês de junho era o mais apropriado para ir ao planetinha porque ficava mais visível. Lá estava de novo a compadralhada para testemunhar mais essa grande façanha. Quase na horinha de sermos lançados ao espaço, Dona Fabiana, minha senhora de toda a vida, me veio com uma vianda: é para terem vitamina para voltar, me disse com carinho. Onofre, o pangaré, outra vez puxou as tiras cerro abaixo até ficarem bem esticadas. Dei o grito sapukay, o bicho corcoveou, as tiras se soltaram e lá fomos nós rumo a Marte. Uma viagem muito mais demorada do que a que fizemos para a Lua. Bento ficou com os olhos arregalados, assustados com o vazio da imensidão. Esvaziei uma térmica de água quente mateando e admirando o universo, bem acomodado em minha espreguiçadeira. Precavido, trouxe outra garrafa térmica. Mas nosso pouso no planeta foi aos trambolhões. E que desgraceira: minha térmica quebrou esparramando toda a água no solo marciano. Não acreditam? Pois lhes conto.

A viagem para a Lua pode ser lida aqui.


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