Artigo

Um “petit Robespierre”

15 de Fevereiro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima, colaborador

Um frio glacial abraça a cidade de Nice. Um homem alto, magro, testa larga, cabelo grisalho, usando um capote pesado com a gola semilevantada, caminha rápido e cabisbaixo, como se não queira ser reconhecido. Na Cité du Parc ingressa em uma porta contígua ao restaurante de um amigo. Sobe uma escada de madeira, detém-se no primeiro andar, bate à porta. Uma mulher de meia idade, cabelos brancos, abre-a. Ela tem olhar vivo, mas fisionomia doce. “Um visitante te espera”, ela diz. Trata-se de John Nordman. Embora não consiga recordar-lhe o nome, Louis Aragon lembra-se de ter encontrado com ele cá e lá em Paris. “Estou de saída”, diz-lhe Norman. “Trouxe-lhe documentos”. Os dois conversam por alguns minutos. Depois, veste o velho capote, coloca o chapéu e vai embora. Aragon abre o envelope e descobre o relato de um massacre, o nome dos mártires, o lugar da tragédia: Châteaubriand. O material chegara a Paris. Frédéric o recebera. Ele o enviava a Aragon com um bilhete no qual se lê: “Faça disso um monumento”. Aragon reconhece a caligrafia de Frédéric: é Jacques Duclos.

Duclos - Aragon desconhecia! - negociara a republicação de L´humanité em Paris com as autoridades alemãs. Mais: até junho de 1941, Duclos não dera razão nem a De Gaulle nem a Hitler. Pior: até o rompimento do Pacto Germânico-Soviético, ele tinha sido o primeiro a dizer a De Gaulle que desejara fazê-lo para não atirar em um boche. Aragon, de fato, ficara feliz com a ratificação do tratado infame assinado entre Hitler e Stalin. Na época diretor do Ce Soir, pensava que a aliança entre soviéticos e alemães possibilitaria a que os soviéticos ganhassem tempo e se recuperassem. Desde o Congresso de Kharkov, e como permanecerá durante toda a sua vida, Louis Aragon será um stalinista convicto. Ou ainda, nas palavras de Dali, um “petit Robespierre”.

Contudo, a assinatura do pacto rendera a Aragon muitas inimizades. Nas ruas da capital francesa, era compelido a mudar de calçada para fugir aos chistes de seus desafetos. O partido comunista fora proibido e seus deputados eram perseguidos e presos. Para não sê-lo, Aragon se refugia na Embaixada do Chile, onde Pablo Neruda o acolhe. Elsa permanece em casa, na Rue de la Sourdière. Todas as noites ela o visita. Juntos, leem trechos de Voyageurs de l´impériale, que ele escreve. Haviam se casado alguns meses atrás. Quase dez anos depois que ela o fisgara, graças à intervenção do poeta Maiakóvski, que oferecera a Aragon um lugar à sua mesa no La Coupole. Dez anos de loucas paixões, crises de ciúmes, escritas cruzadas. Embora ela fosse mais ameaçada, era russa e judia, fora ele que insistira na boda. Fazia questão. Muita questão. Elsa estava horrorizada com a ideia de que a guerra pudesse separa-los. Na véspera da partida para o front, ela lhe dissera que uma mulher da idade dela jamais poderia esperar até o fim da guerra para oferecer seus encantos e receber outros. “Ainda sou jovem e bela”, dissera. Ela o acompanhara até a estação, tão dilacerada quanto ele. Mas Aragon retorna: são e salvo. Ela o apanha em um carro da Embaixada do Chile. Os Estados Unidos lhes oferece abrigo. Preferem permanecer em território francês: na amada Nice.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados