Artigo

Um Kafka genérico, mas oportuno

03 de Agosto de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Rosa, Hospital Espírita, Caps Porto, Ambulatório Saúde Mental - prosasousa@gmail.com

Ele decidiu tomar distância do que disse o bardo inglês - nunca repitas ideias ou palavras, tuas ou de outros. Em simultâneo, aproximou-se da máxima chinesa - o que é bom, deve-se imitar - e fez, então, uma paráfrase de A Metamorfose, do Kafka. Daí, Ian McEwan, escritor de Londres, publicou agora A Barata, Companhia das Letras, 2020.

Mimetizou a abertura genial de Kafka, que faz seu personagem, naquela manhã, se acordar de sonhos inquietos, transformado num baratão. McEwan propõe o inverso: uma barata londrina se acorda angustiada 'e se viu transformada numa criatura gigantesca'. 'Consternada, [viu] seus pés distantes [e] a escassez de membros. Apenas quatro, obviamente, e bastante rígidos'. A barata transformada no Primeiro Ministro inglês.

O escritor declara-se, na verdade, um seguidor da sátira política, cujo expoente na terra dele seria Jonathan Swift, que há tempos propôs, de forma 'feroz e grotesca', que a solução para antigo problema bretão seria 'cozinhar e comer bebês', na opinião de Swift, algo 'apenas tão cruel quanto o domínio da Inglaterra sobre a Irlanda' (pág.101).

Consternado fiquei eu ao vê-lo citar-nos, no posfácio, sobre o populismo que grassa nesse mundo: 'a cegueira causada...por pó mágico comum aos movimentos populistas que atualmente assolam a Europa, os Estados Unidos, o Brasil, a Índia e muitos outros países...[cujos] ingredientes [são]: extrema irracionalidade, hostilidade contra estrangeiros, resistência à análise paciente, desconfiança dos 'especialistas', fanfarronice nacionalista, crença fervorosa em soluções simples, anseio por uma suposta 'pureza' cultural _ e um punhado de políticos cínicos desejosos de se aproveitar de tais impulsos...condições locais variam...no Brasil preferem queimar a Floresta Amazônica...nos Estados Unidos desejam ardentemente o muro mexicano...A Turquia aperfeiçoou a arte de prender jornalistas'. Sobre a Grã-Bretanha esclarece que embora quase dois terços do eleitorado não concordassem em sair da União Europeia e que três em cada quatro deputados fossem igualmente contra o Brexit, o processo prosseguiu porque a maioria dos políticos ignorou o interesse público e acreditava estar ciente da voz do povo.

Convincentemente, observa que o populismo desconhece a própria ignorância, maquiando-a com 'murmúrios de sangue e terra, desprezo trágico pelas mudanças de clima' e alerta que monstros bem piores, mais violentos e fatídicos que o Brexit, podem ser invocados no futuro.

McEwan recomenda, por fim, que estudemos dedicadamente as baratas, destacando seu impulso corporativo e suas respostas em uníssono, porque 'o espírito da barata irá prosperar. Precisamos conhecer bem essa criatura para ter melhor chance de derrotá-la'. 'Acredito que o faremos', arremata.

O quanto Kafka/McEwan estão embrenhados no Planalto? Que bichos sentarão nas vistosas poltronas? O que temos ainda de pagar?


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados