Artigo

Um clássico literário contra Donald Trump

17 de Outubro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel

Certa vez vi uma discussão sem pé nem cabeça num desses grupos de Facebook em que os participantes tentavam chegar a um denominador comum se Hunter S Thompson (1927-2005) apoiaria ou criticaria Donald Trump, caso fosse vivo. Fiquei embasbacado vendo os comentários de leitores do mundo inteiro (americanos, irlandeses, ingleses, alemães, italianos, etc) e conclui rapidamente que quem levantou a questão não devia ter lido nada de Thompson além de Medo e Delírio em Las Vegas.

Hunter simplesmente odiava Richard Nixon. Ele dedicou boa parte da sua vida a atazanar a vida de Nixon e não descansou nem quando o ex-presidente americano foi chutado da Casa Branca após o escândalo de Watergate. E não é só a semelhança de partido que Nixon e Trump partilharam: o discurso de ódio disfarçado por um slogan clichê de "lei e ordem" foi absolutamente o mesmo. Por isso, tendo lido toda a obra de Thompson (em especial "Medo e delírio na campanha", livro-reportagem de Thompson sobre a reeleição de Nixon em 1972), tendo entrevistado Anita Thompson, viúva do escritor, em Woody Creek, Colorado, e tendo conversados com amigos do escritor que ainda estão vivos em Louisville, cidade natal de Thompson, afirmo sem pestanejar: Hunter Thompson não só rejeitaria Trump como tornaria a vida dele um inferno. A forte crítica que ele fazia aos ex-presidentes Ronald Reagan e George W. Bush jogam uma pá de cal em qualquer dúvida sobre isso.

Também não tenho dúvidas de que o que Thompson disse sobre Nixon seria aplicado sem tirar nem por a Donald Trump hoje: "ele representa tudo o que há de pior no ser humano", disser certa vez, referindo-se à ganância, à hipocrisia, ao falso moralismo, à mentira, à preguiça intelectual e ao desprezo pelo ser humano e pelo mundo. Curiosamente, nessa semana, uma obra clássica da literatura americana se tornou protagonista na luta global contra Donald Trump e seu exército de zumbis. Conforme o jornalista Ian Prasad Philbrick do New York Times, uma frase do livro "O grande Gatsby", de Scott Fitzgerald, publicado pela primeira vez em 1925, está circulando nas redes sociais como crítica ao perfil dos trumpistas. Replico aqui o trecho da obra em questão: "Quebravam e esmagavam coisas e criaturas e, então, se entrincheiravam atrás de seu dinheiro ou se escondiam por trás de sua indiferença ou seja lá o que fosse que os mantinha juntos enquanto deixavam que outras pessoas limpassem a sujeira que haviam feito". Difícil encontrar uma definição tão perfeita para o presidente americano, os seus seguidores e a ideologia defendida por esse tipo tosco de político.

Não é a toa que "O grande Gatsby" foi o livro favorito de Hunter Thompson. Conforme apresento em meu livro "Jornalismo gonzo: mentiras sinceras e outras verdades" (Insular, 2016) Thompson, na adolescência, sentava diante da máquina de escrever para redigir a obra de Fitzgerald apenas para tentar sentir a sensação de escrever aquelas palavras fantásticas. Diante do cenário em que vivemos, tenho certeza de que tanto Thompson quanto Fitzgerald, se fossem vivos, estariam ansiosos pelo dia 3 de novembro e, certamente, estariam enrolados na bandeira americana, roendo as unhas à espera do resultado, fazendo contagem regressiva para ver Tump enxotado da casa branca e na torcida contra um falso patriotismo propagado em tempos de redes sociais apenas para bobo ver. Afinal, a única pátria para Trump e trumpistas são as notas verdes de dólar, dentro ou fora da cueca. E o resto? O resto é história pra boi dormir.

Um bom final de semana a todos.


Comentários

Diário Popular - Todos os direitos reservados