Artigo

Um certo Coronel Berger

02 de Novembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Sergio Cruz Lima

Se René Char pega em armas nos primeiros dias da guerra, eis que integra a resistência francesa sob o codinome de Capitão Alexandre, André Malraux somente o fará 90 dias antes do Dia D sob o codinome de Coronel Berger. Em fins de 1942, quando os alemães invadem o sul da França, Malraux, juntamente com a sua família, parte para a região do Périgord. Nos confins da Dordogne junta-se ao amigo Emmanuel Berl e sua esposa Mireille, aquele mesmo que escrevera discursos - e Malraux sabe disso! - para o marechal Pétain, em junho de 1940. Ambos encontram tempo suficiente para colocar consensos e divergências à mesa. Berl e Malraux conversam diariamente. E trocam opiniões. E o bate-papo se alonga. 

Em novembro de 1943, Malraux conhece o Capitão Jack, agente inglês do SOE - Specials Operations Executives -, que envia espiões à Europa ocupada na intenção de apoiar os movimentos de resistência. O encontro é rápido e não conversam a respeito de nada decisivo. No ano seguinte, porém, as coisas ficam mais sérias. Claude e Roland, meio-irmãos de André Malraux, são presos pela Gestapo. A dupla tragédia - e eles são fuzilados pelos alemães - leva o escritor ao caminho da guerra. Ele permuta o endereço, entra para a resistência francesa e percorre as estradas do Périgord em busca de maquis escondidos. E faz mais: autoproclama-se coronel e atribui-se o nome de Berger, o mesmo herói de Les Noyers de l'Altenburg. De novo André encontra-se com o Capitão Jack.

Malraux e o rapaz apanham o trem para Paris. Destino: visitar o Conselho Nacional da Resistência. Na capital francesa, o Capitão Jack se hospeda na casa de Jean Paulhan e cerca-se de obras de arte. No dia seguinte, é levado às docas do Sena, para um encontro com Albert Camus que os conduz até as residências de Lescure e Gide. No retorno de Paris, o Coronel Berger informa ao Capitão Jack que as autoridades aliadas o haviam incumbido de unificar os movimentos de resistência dos departamentos de Corrèze, Dordogne e Lot. Na realidade, ninguém o encarregara de semelhante missão. Tudo conversa.

Em julho de 1944, o carro de Malraux - um Citroën que exibe o estandarte tricolor e as insígnias da França Livre -, é parado em uma barreira alemã. Os soldados atiram. Malraux sai ileso; os demais ocupantes do veículo são feridos. O Coronel Berger é aprisionado e levado ao general que comanda a II Divisão do exército alemão. Logo é reconhecido. Encarcerado na prisão Saint-Michel, é solto em 19 de agosto. Duas hipóteses se alevantam sobre a sua libertação: uma diz que os companheiros do escritor teriam conseguido libertá-lo sob a ameaça de execução de 50 prisioneiros alemães; outra afirma que os maquis de Corrèze teriam comprado sua liberdade. Seja como for, o Coronel Berger consegue os caminhões necessários para transportar uma pequena tropa. Em 60 dias, após ter se autopromovido a coronel, chefe de um estado-maior interaliado que impera sobre Corrèze, Dordogne e Lot, chefe da brigada da Alsácia-Lorena, André Malraux reúne sob suas ordens cerca do dois mil homens em armas que entrarão heroicamente nas Vosges antes de participar da defesa de Estrasburgo. Resistente tardio, mas chefe de guerra carismático, André Malraux, o Coronel Berger, dentro em pouco há de subir no palco da Libertação, adornado com as três cores dos heróis da nação. Falecido em 1976, seus restos mortais encontram-se sepultados no Panteão de Paris, templo destinado a recolher personalidades notáveis da história da França.


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