Artigo

Um bom livro que não recomendo

05 de Dezembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel

Tempos atrás eu tinha um problema psicológico com algumas leituras. Eu me sentia meio "vigarista" se começasse a ler um livro e desistisse na metade. Então, alguns livros lidos ao longo da vida terminei no sacrifício, com muito suor, esforço e neurônios queimados. Porém, com o tempo, eu me resolvi psicologicamente com essa questão e, até hoje, largo um livro que não esteja me fisgando sem nenhum drama, problema ou ressentimentos. Se pego um livro e leio 10, 20 ou 30 páginas e não estou curtindo, deixo de lado e sigo para o próximo. É como o sujeito ou sujeita que está solteiro e percebe que o novo relacionamento não vai para lugar nenhum e parte para o próximo. Simples assim.

Porém, na última semana, estando na quarentena dentro da quarentena, peguei um livro que, em situação normal, eu teria largado nas primeiras páginas: O som e a fúria, de William Faulkner. Um clássico. Porém, um livro que leva 184 páginas (na edição da Companhia das Letras, de 2017) para começar a fazer sentido. O porém, dessa vez, é que mesmo estando cansado fisicamente, meu cérebro estava a mil. Assim, segui lendo e lendo e lendo, mesmo sem entender praticamente nada, até a página 184. Cheguei na página 184 em três dias. Em situação normal, essas 184 páginas me matariam de tédio e sono, mas por estar com muita energia acumulada, acabei entrando na viagem sem nexo dos dois primeiros personagens narradores e acabei, não só seguindo em frente, como também gostando. Depois da página 184, assume outro narrador, e tudo começa a fazer sentido. Na última parte, um narrador onisciente aparece para esclarecer tudo e, para completar, ainda há um apêndice escrito por Faulkner anos depois para dar um destino final aos personagens, pois na versão original, acabada em 1929, ele havia abandonado todos eles num labirinto de possibilidades.

E por que as primeiras 184 páginas são tão desconexas? Simples, Faulkner escreveu a primeira parte na voz de um personagem com grave deficiência mental. Ou seja, ele mistura o tempo, a geografia, os outros personagens, as histórias, etc. Trata-se de Benjamim. Ele tem 33 anos e está sempre sendo cuidado por crianças de cinco a 14 anos que o tratam como um bicho de estimação, brigando com ele infantilmente dizendo coisas como "para de chorar, bobão" ou "pega essa flor aqui e fica quieto". O segundo narrador é seu irmão, Quentim, mas que também é bastante perturbado. Ele é apaixonado pela irmã, Caddy. E, por essa perturbação, ele também mistura o presente (em que ele estuda em Harvard) com o passado, onde ele morria de ciúmes de qualquer namorado ou pretendente de Caddy. O terceiro narrador é Jason, um grandíssimo picareta e mau caráter, completamente cruel, racista, machista e vigarista. Algo parecido com o perfil de muitos políticos contemporâneos mundo afora. Ao mesmo tempo em que rouba a irmã e a sobrinha, ele critica o governo e as grandes empresas. E, claro, Caddy acaba sendo fundamental na relação entre os irmãos, bem como os criados negros, pois a história se passa entre 1910 e 1928, período do segregacionismo americano - e denúncia dos absurdos que eram normatizados nessa sociedade americana racista e decadente é outro ponto fortíssimo da obra.

Enfim, pelo seu início e pelo gigantesco quebra-cabeça que o leitor tem que montar para entender a história, eu não recomendo esse livro para a maioria das pessoas. Eu mesmo, em situação normal, teria o abandonado nas primeiras 50 páginas. No entanto, se você está na quarentena dentro da quarentena, com o cérebro a mil, explodindo de som e fúria, ai sim, essa obra passa a ser altamente recomendável.

Um bom final de semana a todos.


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