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Um aterro sanitário na bacia do Arroio Pelotas

01 de Abril de 2017 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Prof. Dr. Marcelo Dutra da Silva Ecólogo | dutradasilva@terra.com.br 

A ideia de um aterro sanitário em Pelotas é bastante antiga, não é a primeira e nem a segunda vez que se debate este assunto, cujo local da instalação sempre foi incerto e cercado de mistérios. Agora fomos surpreendidos por uma iniciativa privada, que adquiriu uma área nobre de cultivo e criação, no 3º distrito do Cerrito Alegre.

Quando o assunto é lixo o que não faltam são opiniões e dados técnicos dos mais variados. O Brasil produz cerca de 240 mil toneladas/dia de lixo, 45% do que geramos é reciclável e aproveitamos uma pequena parte. Predomina no lixo verde: papel e papelão 25%; metal 2%; vidro 3%; e o plástico cerca de 3%, também (os números são bastante variáveis). Os principais destinos do nosso lixo são: lixões 75%; aterros controlados 13% e aterros sanitários, apenas 10%. E como estes são dados nacionais médios, a realidade de cada região pode variar bastante.

Enquanto o Nordeste apresenta o maior número absoluto de municípios com lixões, o Sudeste lidera a quantidade per capita de lixo gerado e o Sul o menor percentual. Aliás, por aqui a gestão dos resíduos está mais amadurecida, estamos inseridos num processo de universalização semelhante ao de países europeus e temos os mais elevados índices de coleta seletiva do país.

Somos mais conscientes? Talvez, mas o lixo também é um negócio lucrativo. O aterro sanitário é a forma de disposição final mais segura e eficiente que conhecemos. Trata-se de um projeto de engenharia bastante complexo, que exige uma série de cuidados adicionais. Na decomposição dos resíduos ocorre a liberação de gases e líquidos, o que exige estratégias de controle eficientes, para evitar a contaminação do solo e em especial das águas subterrâneas e superficiais. E este é o ponto.

A ideia de um aterro sanitário em Pelotas é excelente, a distância para descartar o lixo será menor e vamos economizar com isso, mas daí pensar que a iniciativa isolada de um empreendedor será a solução para todos os nossos problemas é pouco inteligente. O lixo precisa ser reduzido na origem, então devemos refletir sobre nossa cultura de consumo e desperdício. Aterro é mais do que um negócio, é uma atividade perigosa, com alto poder de poluição, que desvaloriza o lugar em que é instalado, perturba vizinhos e gera graves problemas de logística.

O aterro sanitário do Cerrito Alegre vai gerar todos estes efeitos, mas já ganhou a Licença Prévia (LP) da Fepam, apesar de deixar a impressão de que as pessoas não foram ouvidas. O pedido de Licença de Instalação (LI) está em análise e o Iphan acaba de liberar o empreendimento, mesmo se tratando da bacia do Pelotas, em área relativamente próxima do arroio, de onde também captamos água e é patrimônio cultural do Estado.

Portanto, precisamos estimular o debate, pois é importante que todas as pessoas compreendam o que está acontecendo. Dizer sim ou não, baseado em argumentos genéricos não funciona bem. Então, antes que o processo de licenciamento avance, cabe uma apreciação mais atenta do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), fornecido pela empresa. E o espaço legítimo para este debate é na nossa Câmara de Vereadores, junto aos nossos representantes. Com certeza o Cerrito não é o local mais adequado e talvez a iniciativa do empreendedor deva ser acompanhada por outras iniciativas do município, de estímulo às cooperativas de catadores e educação ambiental. Afinal, o lixo gera renda, gera emprego e devemos aproveitar a oportunidade para universalizar o serviço, sem comprometer a saúde da nossa cidade.


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