Editorial

Um apelo por (ainda mais) economia

25 de Setembro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Vivendo uma das piores crises hídricas de sua história - a mais grave em 91 anos -, o Brasil se vê agora diante da ameaça de desabastecimento energético que exige uma série de medidas para evitar o pior cenário. Do ponto de vista prático, um eventual apagão agravaria ainda mais o pacote de crises em que o país está mergulhado já há alguns anos, com óbvios reflexos negativos na já combalida economia e, claro, na vida da população.

Entre os cidadãos, no entanto, mesmo sem apagão, o impacto está posto e não deve ser de rápida passagem. Nas projeções de especialistas no setor de energia, dificilmente os brasileiros estarão livres de pagar uma conta mais cara antes de 2025. Para o ano atual, inclusive, consultores não descartam a hipótese de mais sobrecarga no bolso além das anunciadas há pouco tempo, como a criação de novo patamar de bandeira, com cobrança extra majorada.

É a possibilidade de desabastecimento que tem feito políticos insistirem em apelos à população para que reduza o consumo. Quase que diariamente, vozes do governo tem vindo a público pedir que luzes sejam apagadas ou equipamentos eletrônicos sejam desligados. Na última semana, partiu do próprio presidente o pedido para que, se possível, as pessoas colaborem com a economia de energia deixando de usar o chuveiro elétrico e tomando banhos gelados.

Os apelos oficiais podem até fazer sentido. Afinal, como dito, é o momento mais crítico em 91 anos nas bacias hidrográficas que geram a parte mais substancial da energia do país. Contudo, não soa justo que algumas declarações e pedidos de comprometimento apontem para os cidadãos a responsabilidade por evitar um apagão. Primeiramente porque esta missão é de quem é escolhido e muito bem pago para planejar o setor, observando a demanda da sociedade e perspectivas. E, também, porque as pessoas não estão esbanjando. Muito pelo contrário. Não é de hoje que parcela majoritária dos brasileiros tem cortado tudo o que pode. Especialmente na conta de luz. E, mesmo assim, o boleto é cada vez mais caro e o risco de falta de energia cada vez maior.

Para estudiosos do tema como o professor Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP e membro do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU), por exemplo, é a falta de visão de longo prazo sobre o setor que coloca em risco o abastecimento e encarece as contas.
Faltam chuvas nas barragens. Mas falta planejamento também.


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