Opinião

Tudo é rio

21 de Maio de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Lisiani Rotta
lisirotta@hotmail.com.br

A história de Dalva e Venâncio, um casal apaixonado que após uma perda traumática vê o seu destino mudar radicalmente, e de Lucy, a atrevida prostituta da cidade, que se intromete no caminho dos dois formando um triângulo inusitado, é um romance surpreendente e encantador. Tudo é rio, da mineira Carla Madeira, é um daqueles romances que queremos ler de novo, pra sorver ao máximo cada frase e o universo de significados atrelado a cada uma delas.

Estou boquiaberta com o talento dessa brilhante escritora que, curiosamente, um dia pensou em ser matemática. A sensibilidade, profundidade, o domínio excepcional da prosa e da poesia, a originalidade da sua escrita e a impressionante criatividade me conquistaram. Tudo é Rio é um livro pequeno, 200 páginas de leitura fácil, fluída, comovente e edificante. Uma aula de vida. Um mergulho no cerne da alma humana. Uma reflexão profunda sobre a complexidade dos nossos sentimentos, os valores do nosso tempo, e sobre o quanto deixamos de aprender uns com os outros devido aos julgamentos rasos que nos permitimos fazer.
Se a vida ainda não ensinou, com certeza esse romance facilitará a compreensão do quanto nos coibimos de evoluir, encarcerados pelos preconceitos. As singularidades da alma humana não são explícitas. Escondem-se no secreto, no inusitado, no incompreensível, no repulsivo, no instigante, no excêntrico, na vastidão do mundo interior. Comportamentos inquietantes ocultam histórias singulares e almas extraordinárias. Boas e ruins. Portanto, viver pode ser banal para quem se contenta em respirar e perceber o óbvio.

Para espíritos elevados, como o de Carla Madeira, é, com certeza, uma grande aventura repleta de intricados enigmas e provocações ofertadas pelos que cruzam o seu caminho. Vivemos um momento assustador. O ser humano se mostra impressionantemente instintivo, autocentrado, egocêntrico, impositivo, intolerante, taxativo, déspota, insensível, desonesto e imaturo. Isso nos põe em risco. Mesmo quando vivemos os nossos melhores dias, desfrutando de lugares aprazíveis, comemorando conquistas dos que amamos ou convivendo com quem nos faz bem, a preocupação com o futuro nos assombra. A pandemia, a guerra, a involução da humanidade, expôs a nossa vulnerabilidade. Até os otimistas patológicos, como eu, se veem entre sentimentos dúbios.

Em momentos especiais, juntamente com a alegria há uma estranha sensação de despedida, uma nostalgia antecipada de um tempo prestes a desaparecer. A consciência de que, de uma hora pra outra, o nosso destino pode ser transfigurado é reforçada diariamente com notícias que revelam o pior do ser humano, descrevem tragédias impensáveis, grandes catástrofes e preveem um futuro assustador. Abrir um livro como Tudo é rio, num momento tão complicado, é como abrir as janelas para o sol em tempos de escuridão. Os personagens nos levam a crer na humanidade.

Eu estava com saudades de ler algo assim. Houve um tempo em que a literatura, o cinema, o teatro, eram inspiradores. A honra, a honestidade, a ética, a generosidade, a superação, os sentimentos nobres eram valorizados. Nossos ídolos defendiam valores admirados em qualquer tempo. Quem são nossos ídolos hoje? O que aprendemos com eles? As novas gerações precisam saber que a sabedoria, o empenho e a bondade humana, são as únicas sementes capazes de garantir a nossa evolução, a nossa paz e a nossa sobrevivência.


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