Artigo

Tresavento, a música que nos faz bem

05 de Dezembro de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger, professor do Centro de Artes da UFPel

Quando eu tinha quase vinte anos, boa parte das rádios AM e das nascentes FM eram mais ousadas, arejadas, independentes e, digamos assim, democráticas, por incrível que possa parecer a quem nasceu nos anos 90, nos começos de nossa verde democracia. Pelo menos em relação à programação musical, se podia ouvir muito as bandas, cantoras e cantores do estado e, também, de todos os cantos do Brasil. Às vezes, os uruguaios, argentinos e chilenos davam as caras. O final dos 70 e os anos 80 foram terra fértil para a música brasileira. Nas décadas seguintes, o mapa da música e as políticas de programação das rádios, pouco a pouco, foram sendo determinadas e manipuladas pela força das gravadoras, das rádios-sistema e dos sucessos planejados. Uma imposição, às vezes sutil e sedutora, de padrão, percepção e gosto. De tanto ouvir, a gente acaba cantando e curtindo com um ok. Fenômeno que alguns estudiosos chamam de contaminação da subjetividade: temos a impressão de que somos livres para fazer nossas escolhas quando, na realidade, escolhemos todos e todas as mesmas coisas.

Se antenem, por exemplo, à moda, aos filmes lançados e aos sucessos de verão. Uma espécie de seleção e censura que vem desde o mercado de consumo. Ou melhor, daqueles que escolhem o que vamos consumir: isso pode, aquilo, não. E não é de hoje. Na história da humanidade sempre foi meio assim, mas nunca de maneira tão acintosa, tão sem saída, tão mimeticamente religiosa. O problema não reside na política que entende a música apenas como entretenimento e consumo como quem devora uma pizza de seis queijos, mas sim, na exclusão e obliteração do espaço e tempo para as outras milhões de músicas consideradas fora do padrão. Acredito que em razão disso, da política econômica de profanação da criatividade e da estética, é que dificilmente chega até nós a produção de música que, diferentemente de encher a pança, enche nossos olhos, toca a nossa pele, arrepia nossos sentidos, toma posse de um lugarzinho no coração.

Querem ver? Querem ouvir? Querem viver uma experiência estética? No próximo dia 11 de dezembro, sexta-feira, o CD Tresavento, de Marcelo Delacroix, estará cumprindo aniversário de um ano de seu lançamento. Já escutaram alguma das canções? Marcelo é um baita compositor, cantor e instrumentista. Sua voz é única, irão perceber. Tresavento é seu terceiro CD autoral. Antes dele, lançou Depois do raio e o homônimo, Marcelo Delacroix, dois CDs que não cansamos de ouvir. Mas Tresavento está no platô das grandes obras de arte, de nunca esquecer. A concepção e os arranjos revestem as belas canções de uma suavidade que nos envolve e que nos conduz por harmonias bem elaboradas e melodias que acariciam. Acho que tem tintas do Elomar Figueira Mello. Giovanni Berti, Neuro Junior, Bruno Coelho, Dionísio Souza, Gutcha Ramil, Andressa Ferreira, Toneco da Costa e Pedro Figueiredo são alguns dos excelentes músicos que participam do disco. Mas não só: Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Cervantes, Jerônimo Jardim, Leandro Maia, Ronaldo Augusto, Tatiana Cruz, Paulo Araújo e Rubem Penz também estão no CD como letristas ou como manancial.

Marcelo é um artista e pesquisador incansável e, por isso, sua música sempre acrescenta, remete, surpreende, arrebata. Tresavento, a canção que dá nome ao disco, parceria com Leandro Maia, é inspirada no conto Tresavento, de Guimarães Rosa. Querem mais? Se cultivamos curiosidade, autonomia e estamos ávidos por arte, vamos conhecer o seu trabalho ao vivo. Assistam, na próxima sexta, dia 11, às 21h, Tresavento e novas canções. Cantam que até o Paulinho da Viola vai estar lá.


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