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Tragédias em um ato - Escárnio (Baseada em fatos reais)

04 de Julho de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Paulo Gaiger - professor do Centro de Artes da UFPel

Sabe, né, como é bom ter dinheiro! Encho os pulmões para dizer isso, com um sorriso de orelha a orelha. Mas desde os tempos do colégio ouvia a mentira de que o dinheiro não traz felicidade. Só se a pessoa for louca da cabeça para acreditar nessa baboseira. É óbvio que o dinheiro traz felicidade. E muita! Outra bobagem era de que o importante é ser e não, ter. Ora, convenhamos, como eu vou ser se não tenho nada? Cabeleireiro custa. Sapatos, nem falo. Festa de casamento no Caribe, então? Além do que, quando tu tens, tu podes acabar com quem apenas é. Isso eu aprendi na vida. Se eu não tivesse a merreca de mil e quinhentos reais sobrando na bolsa, não poderia ter pago a fiança e ainda estaria, injustamente, no xilindró. Passei uma vergonha. Mas essa gentalha ainda vai se ver comigo. Viu, agora eu estou feliz, livre, leve e solta, porque eu tinha dinheiro sobrando. Se eu fosse pobre, negra, faxineira, como um serzinho que não tem nada, eu ainda estaria presa e me lamentando. Viu como o dinheiro traz felicidade?

A gente pode ser amiga de empresários, pode contratar o melhor advogado, pode molhar a mão do deputado, pode até contratar um miliciano. Só quando é preciso, quando a gente se sente injustiçada. Tenho uma amiga que pegou duas parcelas dos miseráveis seiscentos reais do auxílio para quem se ralou na pandemia. Ela só queria pra ajudar nos custos de uma viagem. Ora, todo mundo tem direito de viajar. Se ela fosse pobre, negra ou faxineira, iria gastar essa merreca em porcaria. Não iria nem pensar em viajar pra um lugar bacana. Ia ficar na favela com a negrada. Aí vieram uns jornalistas, desses bem comunistinhas, que descobriram a sacada dela. Deus nos acuda! Colocaram o nome dela na vitrine como se ela fosse ladra. Fiquei com uma dó. Por isso, eu acho que tem que ter censura, sim. E olha que nós duas cansamos de ir pra rua contra a corrupção. Isso o comunista não noticiou. E no caso da minha amiga é bem diferente. Era só pra fazer uma viagem. E, por favor, mil e duzentas merrecas não vão fazer falta pra ninguém! Eu precisei de mil e quinhentos pra pagar a fiança. Com trezentos a menos, ainda estaria lá, vendo o sol quadrado e o bundão do policial. Tudo porque meu marido e eu bebemos um pouco em uma festinha, como duas pessoas do bem. Não dá nada, nunca deu. Mas depois da festa, o carro que estava à nossa frente deu uma freada por causa de um quebra-molas. Batemos na traseira e o cara ficou p da vida e chamou a brigada. Era um babaca. Chegou o carro da polícia e um dos brigadianos, um negrão, achou que a gente tava meio bêbada, viu que os documentos do nosso carro estavam vencidos e o meu marido tava sem a carteira. Agora isso é crime? Nem estávamos roubando! Ah! Subi nas tamancas pra mostrar pro macaco com quem ele estava falando: tu é um lixo, um negro sujo, um preto encardido. Eu ganho muito mais do que tu, negro fedorento. Mas o brigadiano tava se achando. Teve a cara de pau de pedir pra eu me acalmar. Pedir pra eu me acalmar? Que desaforo! Negro nenhum dirige a palavra pra mim.

Repeti o que eu já havia dito pra ver se ele se mandava com o rabo entre as pernas. Ele, então, deu voz de prisão e me algemou por injúria preconceituosa. Ai que nomezinho chique: injúria preconceituosa! Falei pra ele: tu te aproveita que não tem mais escravidão, né! Se não, tu é que tava indo pro xilindró, algemado e chicoteado. Minha amiga me ligou apavorada, com dó de mim. Também virei notícia. Essa imprensa comunista, meu Deus! Agora vou responder processo por causa de um negro ofendidinho. Será que vai acabar no STF? Tem é que fechar esse STF. Como que esse país vai dar certo?


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