Artigo

Tesouros de final de feira

15 de Novembro de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter

Para quem gosta de literatura, as feiras de livros espalhadas pelo Brasil são verdadeiras minas: nelas você sempre consegue encontrar alguns tesouros escondidos em meio a pilhas e pilhas de obras que, por vezes, podem tanto não te interessar, quanto podem apenas querer caçar níqueis com modinhas do momento. Obras sólidas, porém, ficam. Elas marcam vidas, mudam visões de mundo, colam tatuagens invisíveis em cérebros inquietos. Comentei em uma das edições do Café literário da Federal FM que certa vez eu encontrei um livro de um escritor húngaro chamado O tradutor cleptomaníaco (Dezso Kosztolányi, 1885-1936), na Jornada de Literatura de Passo Fundo. Isso foi em 2005. Paguei R$ 5,00, na época, pelo livro. Nunca mais esqueci da história fantástica em que um sujeito cleptomaníaco consegue um emprego como tradutor em uma editora, justamente para não cometer furtos. Acontece que, ele acaba "roubando" nas traduções. Se na obra original o personagem tinha 20 dólares, na tradução ele tem dez. Se havia dez garfos na mesa, na tradução passa a ter cinco. E por aí vai...

Na 47ª Feira do Livro de Pelotas, que termina neste final de semana, encontrei novamente alguns tesouros. No entanto, dessa vez não escolhi autores de outros continentes, nem de outras épocas. Tive a sorte de encontrar, nas sessões de autógrafos, quatro autores locais que escreveram (cada um ao seu estilo) duas obras voltadas para o público infantil. Eu, como sou pai de uma garota de nove anos, interessei-me.

A primeira é Qual a cor do seu prato?, da nutricionista Angélica Ozório Linhares - que além de especialista em Saúde Pública é mestre em Nutrição e Alimentos pela UFPel -, escrito conjuntamente com Raquel Barboza Lhullier, psicóloga, psicoterapeuta cognitivo-comportamental de crianças e adolescentes. Essa é uma obra para crianças e adultos, afinal, como destacam as autoras, os livros também servem para aproximar pais e filhos. Eu, particularmente, li com a minha pequena e as dicas e a forma que mescla didatismo nutricional e literatura estão surtindo efeitos (para mim) surpreendentes. Só posso dar os meus sinceros parabéns às autoras pelas orientações e pela narrativa. Aos pais que passam por dificuldades para inserir uma alimentação saudável aos filhos, eu indico muito esse livro.

A segunda obra é da dupla Ivonei Peraça e Wagner Passos. O primeiro, o escritor, é o pai; enquanto que o segundo, ilustrador, é o filho. Isso mesmo: pai e filho escrevem obras literárias em conjunto há mais de 40 anos. Essa dupla de Rio Grande, na Feira do Livro de 2019 de Pelotas, lançou O boto Charlie, um livro infanto-juvenil que traz uma narrativa agradável sobre uma temática que está em alta: a preservação ao meio ambiente. Aliás, eu trouxe essas duas obras como exemplos de tesouros escondidos, pois elas têm um valor literário que, muitas vezes nós, adultos, não enxergamos, mas que a sensibilidade das crianças certamente vai perceber. E, assim como essas duas obras citadas nessa coluna, há várias outras de muita qualidade lançadas pelos autores locais nessa edição da Feira do Livro. Basta pesquisar, selecionar, comprar e aproveitar.

Os quatro autores falam no programa Café literário deste sábado, que vai ao ar às 15h na Federal FM. A quinta edição do programa tem ainda a participação do escritor, jornalista, poeta e artista carioca Vinicius Longo, que comenta as feiras do livro de maneira geral e, mais especificamente, a Bienal do Rio, um dos maiores eventos literários do país. Já a professora Marislei Ribeiro fala do livro Jornalismo, cultura e tecnologia - Estudos sobre práticas midiáticas contemporâneas, que reúne uma coletânea de artigos escritos pelos professores do curso de Jornalismo do Centro de Letras e Comunicação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). O repórter Paulo Ienczak, por sua vez, traz ao ouvinte a opinião dos frequentadores da Feira do Livro, enquanto que o estudante de jornalismo Jordy Vaniel entrevistou outros autores.

Como salientei no início do texto, há inúmeras obras sendo lançadas a todo momento em vários lugares diferentes. O que podemos fazer é pesquisar e selecionar aquelas que mais nos interessam. Eu, além das obras citadas anteriormente, adquiri o livro Acordei negro, lançado neste ano pelo professor e escritor Juremir Machado da Silva. Trata-se de uma obra que aborda um dos temas mais urgentes da sociedade brasileira contemporânea: o racismo. E, se a literatura pode encantar, ensinar, transformar e apaixonar, ela também pode resistir e combater as injustiças sociais através de seus mais variados formatos.

Assim, despeço-me do nobre leitor, desejando um ótimo final de feira. E que venha a edição 2020!


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