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Tenho a sensação de que já vi isso aqui…

21 de Janeiro de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Pablo Salomão - psicólogo, assessor especial de Criação de Políticas Públicas na prefeitura de Pelotas

Você já teve um déjá vu? Pronuncia déjà vi, pode ler e falar em voz alta, ou em seus pensamentos, como preferir, mas trata-se de um termo da língua francesa que significa "já visto" e explica a reação psicológica que faz com que o cérebro transmita uma sensação de que já esteve naquele lugar, sem ter realmente estado. Eu, particularmente, sempre tive uns "déjà vi" nada eficientes. Lembro-me vagamente de sentir pela primeira vez um desses ao subir num ônibus que me levaria ao Centro. Na ocasião, o motorista, sem demonstrar nenhuma reação, pediu para que eu subisse todos os andares e, caso não tivesse dinheiro para pagar, que descesse do ônibus.

Em 2013 tive o mais significativo déjá vu da minha vida. Foi durante as manifestações de junho daquele ano, naqueles protestos que começaram por causa do aumento de R$ 0,20 na passagem de ônibus, e que se tornaram um marco para todos os fenômenos que surgem na política e na democracia brasileira nos últimos anos. Lembro-me de que meu déjá vu fora quando caminhava bem no meio da rua General Osório, segurando um cartaz que dizia "verás que um filho teu não foge à luta", rodeado de pelotenses que em seus gritos reivindicavam uma série de mudanças para o país. Aquele momento foi uma explosão de emoções que até hoje não consigo explicar. Um combo de liberdade, igualdade e justiça, além da sensação que muitos expressavam através do grito "o gigante acordou".

Mais de oito anos se passaram e o gigante já acordou, adormeceu e acredito que esteja vivendo no modo automático ou simplesmente se omitindo com tudo que anda acontecendo. E veja bem, a militância bolsonarista ou petista não representa nem um terço do país e é por isso que nenhuma outra manifestação se aproximou da chance de reacender a esperança ou a voracidade democrática daquele atípico ano. Nos anos seguintes, a política brasileira foi ditada por uma série de episódios que representavam apenas os desejos de um coletivo, ou espectro político, abandonando os propósitos democráticos e gerando uma corrida eleitoral baseada em ódio e polarização. Nunca foram tão chatas as festas de final de ano, o tio solteirão agora é extremista.

Sendo sincero, tenho muita empatia quando a pessoa me fala que não gosta de política. Não tem porque você gostar! Certo? Afinal, porque se me meter nesse "tiroteio" se tudo que você quer é poder ter seu emprego, uma casa, um carro e comprar tudo que for de seu interesse? Percebeu que provoquei e respondi ao mesmo tempo?! Mas, novamente, não faço julgamentos sobre quem não queira se meter. Na escola, não somos educados nem preparados para entender o "politiquês". Tenho certeza que em algum momento da história podemos até nos revoltarmos, como em 2013, contudo a nossa falta de preparo impedirá mais uma vez a nossa reivindicação para a verdadeira mudança.

Aqueles que entendem um pouquinho a mais acabam se sobressaindo e assumindo o poder, no fim fica tudo do avesso e lá estamos nós discutindo nos eventos familiares. No final, a história vai lembrar que em 2022 tivemos uma chance de mudar o Brasil, e ela vai passar nas nossas mãos. Só nos restou o voto. É muito mais simples do que parece e nem precisa se meter no tiroteio, apenas exerça o seu direito. Vota que muda! Quem sabe assim a política se torna menos polarizada e até divertida, longe de extremos, sem o tio com a camiseta da seleção durante o churrasco da família e uma terrível sensação de déjá vu.


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