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Tempo perdido

14 de Maio de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Maria Alice Estrella

Penso que o tempo, grande senhor e mestre de todas as coisas, alinha e desalinha o que se deixa para depois. Inconveniente e inapropriado permitir que os momentos escorram, displicentemente, junto aos grãos de areia da ampulheta para tentar resgatá-los adiante.

As escolhas e opções, feitas ao longo da existência, mesmo no transitório do instante, têm efeito permanente. Buscar o tempo perdido é uma das maiores redundâncias e ironias a que nos podemos submeter.

Iludimos a nós mesmos, toda vez que camuflamos nossas frustrações através de disfarces, na tentativa de resgatar tudo que o tempo sedimentou. Tempo é um bem de primeira necessidade e dele se pode fazer bom ou mau uso, arcando ora com o ônus do desperdício, ora com o bônus da permanência.

O tempo não admite descaso. Nada é pior do que ser relapso com o passado para depois tentar recuperá-lo no presente.

O tempo exige de cada um o trabalho manual e hábil de agricultor, semeando o instante que passa para esperar que germine no momento seguinte e assim por diante. O ciclo não deve ser interrompido e delegado ao plano do esquecimento para só ser usado quando convier como capricho.

De resto, é questão de rega e poda. A omissão e o abandono não condizem com o tempo. Uma vez perdido, nunca mais será passível de ser encontrado.

Porém, quando cuidamos bem do tempo as recompensas ocorrem, mais dia, menos dia.

Lembro que alguém me colocou o apelido de "Gata borralheira" quando eu era muito jovem. Se o intuito era o de humilhar, não surtiu efeito, porque eu sorria sempre, realizava as tarefas necessárias e dava de ombros.

Hoje, sou menos jovem, mas não descarto o sorriso.

A diferença é que, apesar de não ter me transformado em princesa e, muito menos, em Cinderela, recebo o prêmio do dever cumprido, da semeadura feita no tempo certo e oportuno. Sou fiel ao que plantei e colho as bênçãos a todo instante.

E se, em algum momento, busquei reaver o tempo perdido, confesso que aprendi a ferro e fogo a lição implacável: o tempo perdido é irrecuperável.

Se quiseres boa colheita, não semeia vento, pois colherás tempestades.

E nunca abandones o passado num frasco esquecido de tempo porque, uma vez, perdido, por mais que tentes revivê-lo, terás só a ilusão de o ter recuperado.

E o tempo presente fala por ti, sempre! Ele conta tua história desde o início com teus erros e acertos e assinala, mesmo contra tua vontade, o tempo que ficou perdido no passado.

 


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