Editorial

Sujeira nos caminhões de lixo

24 de Maio de 2022 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por mais que se criem leis, normas, mecanismos de controle e a sociedade civil se mantenha atenta ao uso dos recursos públicos, o Brasil continua sendo terreno fértil para quem busca se dar bem às custas dos contribuintes. Reportagens divulgadas pelo jornal O Estado de S.Paulo no domingo e ontem mostram que a bola da vez é a compra de caminhões compactadores de lixo. De acordo com a apuração jornalística, que se debruçou sobre 7,7 gigabytes de arquivos contendo relatórios, planilhas e vídeos, o orçamento para compra destes veículos saltou 833% entre 2019, primeiro ano do atual governo, e 2022. Passou de R$ 24 milhões para R$ 200,2 milhões. Neste período, a quantidade de caminhões passou de 85 para 453 (aumento de 532%).
Como também abordado em Editorial do DP ontem, a forma de lidar com o lixo é um problema a ser enfrentado pelos gestores brasileiros. E, nesse sentido, além da destinação final, o investimento em equipamentos e sistemas de coleta qualificada em cada um dos municípios é muito necessário. Logo, a aplicação de recursos para a compra de caminhões modernos não seria, em condições normais, motivo para críticas. Contudo, pelo que mostra a reportagem, as condições em que se deram estas negociações e aquisições não parecem normais.

Segundo os documentos analisados, há indícios de sobrepreço nas aquisições dos veículos que totalizariam R$ 109,3 milhões. Em alguns casos, caminhões idênticos, comprados com poucos dias de diferença, teriam diferença de preços de até 30%. Outro ponto que levanta suspeitas sobre a real intenção desse aumento substancial no uso de recursos públicos com esta finalidade específica é que há compra de caminhões de alto custo, aconselhados para cidades de médio porte, sendo comprados e enviados a cidades pequenas, com menos de dez mil moradores.

Em meio aos indícios de irregularidades, aparece um clássico da política brasileira que está longe de ser exclusividade de governo X ou Y: emendas parlamentares liberadas pelos ministérios a aliados para custear contratos com empresas de amigos ou conhecidos destes políticos.

Por enquanto, todas as informações apresentadas não passam de reportagens na imprensa, que insiste em seguir cumprindo seu papel fiscalizador, como faz em todos os governos. Contudo, os indícios são robustos de que estes caminhões de lixo estejam escondendo muita sujeira. Se não estiverem, será preciso que o governo aja com muito mais transparência do que de costume para mostrar que tudo está limpo.


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