Editorial

Sorria, você está cancelado

22 de Fevereiro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

O ato de cancelar sempre foi algo normal. Cancelar uma compra, a ida a uma festa ou um compromisso com amigos. A questão é que, de um tempo recente pra cá, começou um novo tipo de cancelamento: o de pessoas. E essa novidade trazida pela popularização das redes sociais é algo que precisa ser refletido.

Afinal, como se cancela alguém? Essa história toda começou como uma forma de chamar a atenção para causas e amplificar a voz de grupos. Hoje a cultura do cancelamento caminha de mãos dadas com insultos coordenados, disparados contra uma pessoa, uma marca ou uma empresa. São ataques à reputação, com mensagens cheias de ódio, algumas vezes até piores do que o próprio motivo original que levou ao tal cancelamento. No fim o que temos são atitudes questionáveis gerando reações igualmente questionáveis.

Muitas das “vítimas” - assim mesmo, entre aspas - da cultura do cancelamento são os influencers. Pessoas que ditam tendências e mostram um estilo de vida admirado pelos seguidores, com uma contagiante, e talvez enganadora, alegria que parece estar presente em tempo integral. Muitos psicólogos, inclusive, consideram ser improvável essa imagem de “vida perfeita”. Atualmente o Big Brother Brasil, maior reality show do país, realizado pela Rede Globo, tem em seu elenco alguns convidados considerados celebridades. São eles cantores, humoristas, atores e... influencers. Aqueles que entraram anônimos na “casa mais vigiada do Brasil” saem como? Influenciando. Cada atitude, cada escolha, tudo parece refletir na sociedade, que não hesita em apontar o dedo. A maioria dos participantes do reality já foi cancelada pelo tribunal das redes sociais. É como se errar a porção do arroz na hora de cozinhar já fosse o suficiente para definir o caráter de uma pessoa.

Por outro lado, essa reação ordenada que parte do mundo virtual já serviu para que muita gente pudesse repensar suas ações. O cancelamento pode, sim, auxiliar em um processo de conscientização. O mais recente cancelado, que integra um reality show diferente, é o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ). Fez ameaças a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Estado Democrático de Direito. Foi preso em flagrante.

Desrespeitou servidores da Polícia Federal. Voltou à internet com um pedido de desculpas. Segue detido por decisão judicial e vê da prisão seu “cancelamento” aumentar por conta de vídeos que surgem com conteúdo racista. Por fim, responderá a um processo por falta de decoro, que deverá ser instaurado pelo Conselho de Ética da Câmara dos Deputados. Cancelado (e literalmente suspenso) nas redes sociais, Daniel também encontra apoio, mas muito pouco perto da onda que se move em sua direção.

Para todos os casos, errar, admitir e, de fato, aprender deveria ser um procedimento padrão. É preciso enxergar e absorver a lição. Assim quem sabe as pessoas vão, aos poucos, percebendo que errar a porção do arroz nem é algo tão ruim.


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