Editorial

Solenidades inúteis

16 de Janeiro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

O anúncio feito na quinta-feira pelo ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, de que a vacinação no Brasil deve começar na próxima quarta-feira é, sem dúvida, ótima notícia. Uma das mais aguardadas destes últimos dez meses em que estamos absorvidos pelo medo de um vírus mortal e pelas sombras das crendices de quem advoga tratamentos precoces ou alternativos sem comprovação científica. Melhor que isso será quando o coronavírus virar uma não-notícia, com quadros diários de infecções e mortes sumindo dos jornais.

Porém, a declaração de Pazuello sobre a vacinação trouxe consigo um problema crônico brasileiro: a incontrolável necessidade de promover solenidades. Ao afirmar a prefeitos que, autorizada pela Anvisa, a vacina será distribuída na segunda-feira aos Estados e municípios, o ministro ressalvou que antes das 10h de quarta-feira, dia 20, ninguém será imunizado. Mesmo onde as doses já estiverem disponíveis, será preciso aguardar um ou dois dias até que o tão aguardado "dia D e hora H" cheguem conforme o cronograma oficial. E um dos motivos para isso é que o governo planeja para terça-feira, dia 19, cerimônia de lançamento da vacinação contra o coronavírus.

Não é difícil compreender a lógica por trás desse tipo de orientação do Ministério da Saúde. Em disputa acirrada visando a eleição de 2022, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o governador João Dória (PSDB), de São Paulo, brigam pelo protagonismo da imunização. Mesmo que um deles insista diariamente em desqualificar a ciência e as vacinas. Ao segurar a aplicação das doses, o governo federal quer garantir as primeiras fotos, o palanque para seus recados, sejam eles quais forem.

Frente a uma crise que faz do Brasil o segundo país com mais mortes pela pandemia, a seriedade e o compromisso público exigem de governantes sérios e com real espírito público que deixem de lado flashes e aplausos de assessores. O que importa é vacinar o quanto antes. Isso faz toda a diferença contra a Covid-19. Solenidades, não.


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