Artigo

Sobre andarilhos e literatura

30 de Maio de 2020 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Eduardo Ritter, professor do Centro de Letras e Comunicação da UFPel

Sempre tive um espírito de andarilho. Desde que me formei, não completei quatro anos morando na mesma cidade. E mesmo morando em uma cidade específica, sempre fico procurando uma andança, uma viagem, um tempo para vagar pelo mundo. Sinto aquela "cosquinha" no pé. A partir disso, vocês podem imaginar a angústia que o confinamento está me causando. Ok, já disse, sou um peixe fora d'água, pois num país que reclama de fazer quarentena sem realmente fazê-la, quem leva as mil mortes por Covid-19 diárias a sério é que está passando por esquisito. Entretanto, estou me cuidando agora para poder zanzar por aí quando tudo isso passar. Gosto de viajar, mas deixo a ida para o além para os "valentões" que seguem as orientações do Planalto. Prefiro flanar pela Terra mesmo. Pelo menos por enquanto, pois a coisa anda braba entre os terráqueos...

Lembrando de algumas andanças, recordei que no ano em que morei em Nova York, com a indicação do meu orientador da New York University, Robert Boynton, encontrei o livro Up in the old hotel, de Joseph Mitchell. Trata-se de uma coletânea com todos os textos publicados por Mitchell na imprensa, incluindo o famoso "O segredo de Joe Gould" (tem uma publicação em português que leva esse título). Na versão original em inglês são dois textos com o mesmo objeto. O primeiro, Professor Sea Gull (Professor Gaivota) foi escrito por Mitchell quando Joe Gould ainda estava vivo. Uma espécie de perfil, em que ele não revela o tal "segredo" do professor gaivota. E no segundo (que são mais ou menos 100 páginas), ele conta tudo sobre Joe Gould, que nessa época já havia morrido. Mas afinal, quem foi o professor Gaivota?

Gould foi uma espécie de avô dos andarilhos e escritores vagabundos americanos. Ele nasceu nos arredores de Boston, e tanto o seu pai quanto o avô haviam sido médicos. Aí tem uma longa história sobre como ele desistiu de seguir a carreira do pai e do avô, que incluem uma passagem por Harvard.

Certo dia, Gould ouviu um professor falando mal dele. Ao comentar o episódio com o pai, ele foi ainda mais humilhado. Então Gould decidiu fazer o que muitos escritores faziam na época: deixou a sua pequena cidade para tentar ser "alguém" em uma metrópole, no caso, New York City. Ele até começou bem: trabalhando como repórter policial de um jornal. A vida mudou quando lhe caiu nas mãos um texto que dizia que a verdadeira história da humanidade não estava nos livros de História ou nas biografias dos grandes líderes mundiais, mas nas conversas do dia-a-dia. Foi então que decidiu: escreveria "The Oral History of our time" - A história oral de nosso tempo. E então esse projeto passou a ser a vida dele. Como no livro Mendigos Altivos, do escritor egípcio Albert Cossery, o cara simplesmente largou o emprego e se dedicou ao projeto do Oral History. E, pensem bem, isso era anos 1920, 1930... Nem máquina de escrever ele tinha! Era tudo na mão, nas paradas de metrô, nos parques, nos bares, nas bibliotecas. E ia deixando centenas de páginas escritas na casa de cada amigo, porque não conseguia carregar tudo. Assim, Gould passou a ser um maltrapilho, vivendo da doação de alguns que sentiam pena, de outros que acreditavam no projeto, ou de fãs da sua loucura. Mitchell, que era repórter da The New Yorker, resgatou a história do cara - nesses dois textos que se tornaram clássicos do Jornalismo Literário mundial. E por que Gould ficou conhecido como "Professor Gaivota"? Simples: porque ele dizia que falava a língua das gaivotas, inclusive, traduzindo poemas proclamados pelas aves para o inglês.

Enfim, a história do cara é fantástica, e lembro que na época em que li o livro a achei mais espetacular ainda porque os lugares mencionados são os mesmos que eu frequentava, como Washington Square e os arredores da NYU. Recordo que quando via andarilhos maltrapilhos nos metrôs de Nova York, no Harlem, nas ruas, eu me questionava: será um desses caras um Joe Gould do século XXI? Provavelmente sim. E certamente temos milhares de Goulds no Brasil e no Rio Grande do Sul, genialidades descartadas pela sociedade sem dó, piedade ou remorso. Porém, não temos um Joseph Mitchell para contar as suas histórias.


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