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Sobre a vida...

12 de Maio de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Gustavo Jaccottet, advogado - gustavo@jaccottet.adv.br

O aborto pode até ser "legalizado", mas não deixará de ser imoral; é a vida que pauta paixões sendo desmoralizada.

É razoável ser a favor do assassinato? É moralmente correto um feto virar um dejeto ou usar de órgãos e tecidos de executados para fins de transplante? Estas são questões pontuais. Só depois de respondidas suportam argumentos em favor ou contra, mas o assassinato não deixará de existir, ele apenas será eufemizado.

O problema seria simples de resolver, mas o Brasil é complicado. Há outras prioridades, mas a cor "verde" pôs homens e mulheres, liberais e socialistas, negros e brancos, em lados opostos.

Oponho-me à pena de morte como medida para a redução da criminalidade; já o aborto está em voga, antes como uma questão de costumes. É equivocado vincular políticas públicas em prol do assassinato sob a escusa de que há uma bandeira pela libertação das mulheres. Quem quiser ser mãe, que o seja; não preciso - como também não quero - ouvir/ler que "a sociedade e blá-blá-blá" são inquisidores.

Em o "Último dia de um Condenado à morte", Victor Hugo narra a aflição ante o exaurimento da vida por sentença, contudo é em Dostoievski que se extrai a minúcia da aversão à pena capital, pois ele havia sido condenado a ela, mas recebeu o indulto ao patíbulo.

Em "O Idiota", narrou as experiências do Príncipe Míchkin, puro e justo; ao chegar em São Petersburgo, trava debates sobre a pena de morte e as formas de como um condenado sentir-se-ia à execução. O "comum" é pensar na finalidade, mas são raros aqueles que se ocupam de pôr-se no lugar do sentenciado, que conta as horas para ter a sua vida exaurida.

Há imoralidade na decisão que fixa que um igual será morto; poder cruento, cito: "e, todavia, a dor principal, a mais forte, pode não estar nos ferimentos e sim, veja, em você saber, com certeza que dentro de uma hora, depois dentro de minutos, depois dentro de meio minuto, depois agora, nesse instante a alma irá voar do corpo, que você não vai mais ser uma pessoa, e que isso já é certeza". Adiante, conclui: "A morte por sentença é desproporcionalmente mais terrível que a morte cometida por bandidos. Aquele que os bandidos matam, que é esfaqueado à noite, em um bosque, ou de um jeito qualquer, ainda espera que se salvará sem falta, até o último instante… essa última esperança, com a qual é dez vezes mais fácil morrer, é abolida com certeza. Aqui existe a sentença, e no fato de que com certeza não se vai fugir a ela reside todo o terrível suplício, e mais forte que esse suplício não existe nada no mundo".

É inadmissível ao ser vivo decidir sobre a interrupção da vida esta é depreciada ante ao histerismo das mulheres de vestes verde. Notem a agonia denotada por Dostoievski e por alguns instantes ponham-se na condição de um condenado à morte. Os valores da coletividade tendem à tutela da vida. Estamos trilhando caminhos viciosos. Ainda que só Deus pode soprar a argila para criar um ser humano, que sentido há em continuar se a sua criação decide destruir os seus iguais?


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