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Sobre a falta da necessidade de um novo Pronto-Socorro em Pelotas

24 de Abril de 2019 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Francine Marques, assistente social

Pelotas não precisa de mais um Pronto-Socorro, tão pouco de um Pronto-Socorro maior. O que Pelotas precisa, para garantir um atendimento em saúde digno para sua população, é de mais leitos nos hospitais e, principalmente, de mais médicos especialistas atendendo na rede.

A imagem do Pronto-Socorro lotado, com pessoas amontoadas pelos corredores, é chocante e desumana. É um cenário que existe em todo o território nacional, resultado de uma política de subfinanciamento da saúde pública no Brasil. Que no papel oferece um sistema amplo e universal, mas que na prática nunca existiu em sua integralidade.

O SUS, como foi concebido na Constituição Federal, e posteriormente reafirmado em todas as suas diretrizes, garante acesso à saúde gratuita e integral. No papel é tudo fantástico, mas no "chão de fábrica", o que se propõe no papel simplesmente não existe. Existe é uma defasagem do valor pago pelos serviços de saúde que está quebrando hospitais e deixando os municípios em situação de calamidade. A tabela que regulamenta os valores pagos pelo governo às instituições de saúde está em enorme defasagem. Existem procedimentos da tabela SUS, como é chamada, que não passam por reajustes há mais de 20 anos. O que se paga pelos procedimentos não cobre o custo dos mesmos. Em alguns casos, os valores pagos pelas internações hospitalares não cobrem nem ao menos a estadia do cidadão internado, o que dirá os procedimentos médicos realizados. Como faz um gestor para manter um serviço operando sem recursos suficientes para tal? Não faz!

E como faz para um município atrair médicos especialistas para trabalhar na rede, se o salário oferecido é muito inferior ao que eles ganham trabalhando em outros espaços? É impossível! Então se formam déficits de profissionais, que acarretam em filas de esperas por consultas... e nesses meses de espera por uma consulta com um otorrino, a otite crônica do "seu José" (personagem mais ou menos fictício) evolui e ele vai precisar de um procedimento cirúrgico, de alguns dias de internação hospitalar, de uma medicação mais avançada, e consequentemente mais cara. Ou seja, vai ser um gasto muito superior ao Estado do que seria se ele tivesse sido atendido por um médico especialista no início da enfermidade. Quantas histórias dessas conhecemos?

A questão central do problema da saúde é o subfinanciamento. Gestor nenhum consegue fazer milagre sem recursos, não adianta terem os melhores prédios, equipamentos de ponta, se não existe um profissional qualificado para atender a população quando ela necessita. Um novo Pronto-Socorro não irá resolver os problemas de saúde da região; será somente mais um espaço para amontoar pessoas que necessitam de atendimento.

O PS é um serviço para atender urgências e emergências, que acaba abrigando "internações" que deveriam ser feitas em hospitais e atendendo demandas que não deveriam nunca ter virado uma situação de urgência, pois deveriam ter sido tratadas no início da enfermidade. Precisa-se é mudar o locus da proposta. O dinheiro que se destinaria para a construção de um novo Pronto-Socorro deve sim ser pleiteado pelo município, através dos parlamentares eleitos pela região, mas para qualificar o atendimento das UBSs e UPAs, garantindo atendimento especializado na rede. Precisamos é de recursos para manter nossos hospitais abertos. Lá, existe a infraestrutura para atender a população de forma adequada. Precisa é exigir uma pressão conjunta pela atualização da tabela SUS, para que os municípios possam ter gerência sobre a saúde sem precisar ficar implorando recursos para o governo federal.

Nosso município precisa é de mais médicos na rede, sobretudo de especialistas, de mais remédios na farmácia, de mais valorização profissional para todos os agentes de saúde, e não de mais prédios.


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