Artigo

Só pra acertar os ponteiros

Todas as famílias possuem problemas, todas as casas guardam dramas, todos têm suas dificuldades

15 de Dezembro de 2012 - 05h30 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por: Marta Fernandes de Sousa Costa, escritora

Estamos combinados, então: essa carga que às vezes pesa não é prioridade nossa. Todas as famílias possuem problemas, todas as casas guardam dramas, todos têm suas dificuldades. É isso aí, estamos juntos no mesmo barco, usufruindo da nossa condição humana. Ufa, que alívio saber que não é nada pessoal, não fomos escolhidos para carregar o mundo nas costas, acontece com todos, mais cedo ou mais tarde.

Sofrem as crianças, por vezes, no mundo que nos parece protegido e encantado, por não entender o dos adultos, com desencontros e atribulações que fogem a sua compreensão. Sofrem os adolescentes - e como sofrem! - tendo que elaborar situações sentimentais, desavenças familiares, amigos que não se comportam como tal, além da espinha na ponta do nariz, da gordurinha saltando do jeans, das dúvidas sobre o desempenho sexual, quando chegar a hora. Sofrem todos, esporadicamente, uns mais que outros - que nessa questão também não há justiça.

E aí cada um se apega a alguma tábua de salvação. Alguns se afligem, aumentando a ansiedade: novo ano é sinônimo de nova vida, querem mudar, virar a página, mas cadê a coragem? E o pior é que o mundo pode acabar - estão anunciando - e a gente não sabe como será; nem fez nada do que almejava e agora o tempo acabou.
Calma, pessoal: a cada minuto, o mundo acaba para alguém, que fecha os olhos, pela última vez, a maioria sem estar preparado, como se nunca houvesse pensado nisso e como se não fosse a coisa mais certa, desde o nascimento. O mundo está sempre acabando, desmoronando, saindo de órbita, mas é muito pouco provável que termine de vez, pelo menos por enquanto.
Mas, receosos do futuro, quando a situação aperta, cada um se vira como pode. Alguns se apegam à esperança, como lembra o médico, contando a história do paciente que, considerando-se em fase terminal, preferiu desistir, simplesmente. Ao lhe ser oferecida a possibilidade de um transplante, contudo, a família surpreendeu-se com a volta à vida: fez a barba, arrumou-se, voltou a conviver com os amigos.

Esperança é um remédio eficaz, com certeza. Ilusão a que se apega quem acredita que as coisas podem cair do céu, sem exigir esforço. Alguns sobrevivem de esperança, olhos fechados para o mundo à volta. Outros preferem enfrentar a realidade, fazendo o possível para melhorá-la, sem muito estresse. Apenas por estar ciente de que cada um possui a sua carga e a maneira de levá-la faz toda a diferença.

Deixar de fazer a barba, esquecer o banho, não se olhar no espelho é vontade de castigar os próximos, sobrecarregá-los com a culpa de estarem sadios, alegres, cheios de ânimo. Quem não se cuida declara o fim do seu mundo, antes da hora que lhe caberá. E o pior é que, se os seus amores não estivessem de bem com a vida, seria maior o sofrimento do infeliz.
Mas o pior de tudo, cá entre nós, é a energia que as pessoas que se julgam donas do sofrimento roubam dos outros, daqueles que se esforçam para seguir em frente. Aqueles que procuram administrar suas dificuldades, dando-nos a ilusão de que nada lhes pesa. Só por estarem cientes de que o barco, ainda que seja o mesmo, exige de alguns tanta força nos remos que a gente nem sabe como eles conseguem.


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