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Sintonia no planalto, enfim

25 de Janeiro de 2021 - 05h00 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Paulo Rosa, médico, Piratini, terceiro distrito prosasousa@gmail.com

Qual Pacúvio, romano que governou a Síria aí pelos anos 50 d.C. e metia festa todo santo dia, fez-se luz celestial na cabeça do ministro. Depois de sofrido período brasileiro, exuberante pela forma confusa, lerda, lenta, com precisões tipo ‘dia D e hora H’, pazuellamente cozinhada - com desfecho óbvio, orquestrado e sinistro - fomos desembocar na impensável Tragédia Amazônica de Manaus. Apesar da propalada disponibilidade de uma pasta da Saúde com auxiliares PhD em estratégia e logística, faltou-nos de tudo na Grande Floresta, exceto mortes desnecessárias e evitáveis.

Quem gosta de falar do Pacúvio e sua licenciosa vida é Sêneca, o Novo, que em seu Aprendendo a Viver, conjunto das cartas ao grande amigo Lucílio, na carta 12, por exemplo, nos informa que o esdrúxulo e sonoro dirigente ‘se instalou na Síria com todos os seus poderes, com vinho e banquetes fúnebres, celebrava suas próprias exéquias (funerais), era levado da mesa à cama entre os aplausos dos seus convidados, que cantavam uma música. Nenhum dia deixava de realizar esse ritual. Aquilo que Pacúvio fazia como espetáculo, nós devemos fazer imbuídos de honestidade’. O sábio Lúcio Anneo Sêneca utiliza a vida festiva desvairada do hiperbólico dirigente como metáfora, de que devemos viver a vida com honestidade, mas vive-la como se não houvesse amanhã, conscientes de que há.

Sabe lá se antevendo a longínqua, vindoura e proverbial Brasília, Sêneca, na carta 28, fala sobre os que buscam viajar, trocar de cidade, e aconselha: ‘...te admiras como se fosse uma coisa nova o fato de em tão longa peregrinação e em tanta variedade de lugares não teres tirado a tristeza e a gravidade da mente? Deves mudar o ânimo e não o céu. Mesmo que atravesses o vasto mar, mesmo que, como diz nosso Virgílio, ‘se percam a terra e as cidades’, os vícios te seguem e te perseguem aonde quer que vás. Sendo perguntado sobre isso, Sócrates disse: ‘por que te admiras de que em nada as viagens te beneficiem quando te levas contigo? Vai atrás de ti a mesma causa que te faz fugir’.Sêneca: ‘a quem pode ajudar a novidade das terras? A quem o conhecimento das cidades ou dos lugares? Toda essa agitação é em vão. Perguntas por que essa fuga não te ajuda; ora, tu foges de ti mesmo. É o peso da alma que deves deixar: antes disso, nenhum lugar te agradará’.

Não seria de bom alvitre Parlamento e Executivo usarem doses diárias de Sêneca, entre um café e outro, e mesmo em sessões no plenário? Seria pedir demais às excelências? Aproveitando o barco, digam-nos, fogem do que mesmo aí nesse planalto?

Mas, por fim, a almejada sintonia. Depois de tantas cabeçadas, tantas divergências, presidente e vice, ambos, mui varonil e decididamente, se afinaram: passaram a usar a mesma marca de tinta de cabelo, mantendo o supremo e livre arbítrio quanto a optarem pela tonalidade, podendo escolher do acaju à asa da graúna. O povo brasileiro descansa em paz.


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