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Shakespeare e a música

10 de Agosto de 2020 - 08h22 0 comentário(s) Corrigir A + A -

Por Thiago Perdigão - escritor e compositor

“Confesso que teus escritos são tais que nem homem nem musa podem abarcá-los suficientemente... Alma do século! Aplauso, delícia, assombro da nossa cena! (...) És um monumento sem tumba, e viverás enquanto viver teu livro e haja inteligências para lê-lo e elogios a tributá-lo. (...) Que ele não é de um século, senão de todos os tempos!” Assim escreveu sobre Shakespeare (1564-1616) seu contemporâneo Ben Jonson, igualmente dramaturgo e poeta inglês do período elisabetano. Este período compreendeu a era de ouro da história inglesa, na qual o comércio inglês se expandiu, superando em potência a Espanha, além de ter sido o auge do renascimento na Inglaterra, com destaques para a literatura e o teatro. Que tais artes tenham se destacado em tal período, parece claro: mas, e quanto à música? Como ela aparece dentro da obra de Shakespeare?

A fim responder tais questões, escolhemos para uma análise resumida a famosa tragédia Romeu e Julieta, que tornou-se popular já na época de seu autor. O primeiro exemplo elencado corresponde a um momento musical no qual, antes de Romeu dirigir-se a uma festa na casa de Capuleto, Benvólio, que está ao seu lado, diz: “Tocai, tambores!” (Cena 4, ato 1). A música tocada neste trecho provavelmente tinha também a função de separar as cenas (pois ela ocorre justamente na troca de cenas) e produzir a impressão de mudança do cenário, embora de um “cenário imaginário”, pois as representações na Inglaterra da época de Shakespeare geralmente não continham cenários luxuosos e extensas trocas de ambientes, sendo o palco aberto e, muitas vezes, sem qualquer fundo.

Mais adiante, Mercúcio canta diante de Romeu uma simples canção zombeteira, que Shakespeare organiza em seis pequenos versos satíricos, que começam dizendo “lebre pelancuda” e terminam com “não vale a pena comprar!” (cena 4, ato 2). Esse tipo de elemento cômico é um exemplo de como o autor conseguia, mesmo dentro de uma tragédia de conteúdo sério, voltada ao amor e à morte, trazer à tona o bom humor, criando amplas alternâncias de estados sentimentais. Semelhante alternância, associada ainda à música, ocorre também em uma das falas de Julieta, onde Shakespeare se usa da metáfora musical e do humor simultaneamente: “ah, meu Deus, por que a tristeza no teu rosto? Se as notícias são tristes, mesmo assim conta-as com alegria; se são boas, estarás desafinando a melodia de doces novas ao tocá-la para mim com cara tão azeda”.

Em meio a uma das muitas declarações amorosas de Romeu para Julieta, ele expressa: “ah, Julieta, se a medida da tua alegria estiver transbordando como a minha, e se tens a habilidade necessária para proclamá-la, então adoça com teu hálito o ar que nos cerca e deixa que a língua riquíssima da música revele a felicidade imaginada que recebemos um do outro com este encontro de ternura” (cena 6, ato 2). Já Julieta, associando a música à figura do pássaro chamado cotovia, diz para Romeu: “é a cotovia que canta assim tão desafinada, forçando irritantes dissonâncias e agudos desagradáveis. Alguns dizem que a cotovia separa as frases melódicas com doçura; não posso acreditar, pois que ela vem agora nos separar” (cena 5, ato 3).

Mas o mais impressionante em relação à música na peça Romeu e Julieta consiste na cena final do quarto ato, onde três músicos entram em ação e, na medida em que dialogam com o personagem Pedro, qual lhes pede uma canção, vão tecendo meditações jocosas sobre a arte musical, a ponto de expressarem geniais trocadilhos: quando Pedro pergunta “posso ir sem ‘dó’ para cima de você; posso ir de ‘ré’ para cima de você; agora você ‘mi’ nota?”, um dos músicos lhe responde que “pode vir sem dó, pode vir de ré, e é você quem de nós vai tomar nota!”.


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